Há um vazio que precisa ser preenchido

        Começou a maquiar-se diante no espelho ainda nua. Enquanto usava o corretivo e aplicava o delineador, questionava-se quantas vezes mais teria que passar por aquilo. Como não costumava se maquiar com frequência demorava mais do que acreditava ser necessário. Eram tantas opções de cores e tantos tutoriais que havia assistido que estava quase chegando ao ponto em que preferia colocar seu pijama e passar a noite na cama assistindo séries do que terminar sua sessão de caras e bocas para mais um primeiro encontro.

        Achava-se patética, 38 anos e ainda a procura de alguém que preenchesse o vazio que as tias da família diziam que apenas um homem seria capaz de fazê-lo. Por alguns anos ela até achou ter encontrado a pessoa certa, foram cinco anos, cinco anos de concessões e expectativas, cinco anos que encerraram-se em uma chamada de voz e nenhuma surpresa. E desde então não havia tia, ou qualquer figura feminina empoderada que fizesse Priscila acreditar no amor. Por algum tempo havia tentado, tentou homens altos, baixos, carecas, cabeludos, novos, velhos, mulheres, no entanto havia chegado ao seu limite e limitou-se a uma rotina mais saudável.

        Mas os momentos de solidão ainda existiam. O gato em casa não era suficiente, o trabalho exaustivo, a academia, os amigos e toda a vida social que tinha ainda mantinha a cama fria e desocupada a noite. Além do mais, Flávia havia prometido que seria a última vez que ela tentaria ser mais competente que o cupido.

        Terminara de se maquiar, já havia escolhido a roupa, nada muito curto, nada muito justo, nada demais, não se lembrava mais qual fora o momento em que deixou de fazer questão de tentar ser a pessoa perfeita no primeiro encontro. Esse seria o terceiro esse mês, e desde o último relacionamento já havia perdido a conta e uma considerável fração da esperança.

        Não entendia porque o primeiro encontro ainda causava tanta agitação, tinha que repetir para si mesma tantas vezes de que não importava quem iria conhecer, ninguém poderia desmerecer toda sua carreira e conquistas ao longo do ano, pelo menos não no primeiro encontro. Tentava evitar pensamentos negativos sobre si mesma, lição que aprendera depois que o primeiro namorado lhe rendeu sessões de terapia por humilhá-la psicologicamente tantas vezes ao ponto de não conseguir admirar nada em sua vida além dele. Lembrou-se da carreira maravilhosa, do apartamento que acabara de quitar, da conta no banco, da família – que não tinha tantos problemas ou confusões quanto qualquer outra família – dos pais que estavam ainda com saúde e a apoiavam em todas as etapas da vida, dos amigos, que alguns já faziam parte da família agora.

        Flávia era a matchmaker do grupo, ela havia casado com o namorado do tempo de adolescência e tinha um dos relacionamentos mais perfeitos que alguém podia imaginar, tão perfeito que todos as amigas do grupo já haviam desistido de encontrar alguém como Renan, afinal só devia existir um homem como ele num raio de 100 quilômetros e não havia esperança para elas. Flávia já estava casada há mais de 10 anos, nem sempre o caminho havia sido de rosas, mas ela jamais perdera a esperança no amor, e não conseguia ver suas amigas desistindo de viver algo tão especial como o que ela tinha, e sentia a necessidade de ajudar.

        Dessa vez Flávia não quis antecipar muito sobre a pessoa, disse que a expectativa não ajudaria em nada para o encontro e tinha razão. Ficara mais aliviada do que surpresa quando o encontro não seria em um restaurante, seu último primeiro encontro foi em uma Costelaria e ela ainda não sabia se o pior foi quando tentou tirar a carne do osso e a mesma pulou para fora de seu prato ou quando levantou seu olhar tudo o que viu foi um homem com as mãos engorduradas e os lábios sujos de molho barbecue devorando suas costelas. Ele ainda tentava conversar durante o jantar, e falava enquanto mastigava, o barulho vindo do lado oposto da mesa era algo que não esqueceria tão cedo.

    Priscila estava pronta, não era hora de desistir, olhou uma última vez para a cama, que no momento estava sendo ocupada pelo seu gato e desejou que não sentisse tanta falta de ter alguém para compartilhar os acontecimentos do dia antes de dormir.

O bar era um pouco afastado da sua casa, mas era possível ir de metrô, eram apenas seis estações da sua casa. O metrô era muito mais conveniente do que táxis e ainda permitia aliviar a ansiedade ao tentar adivinhar o que cada um no vagão estava prestes a fazer depois que chegasse ao destino.

        Naquela noite por conta do horário era possível dividir os passageiros em dois grupos, os que voltavam para casa e teriam o repouso merecido depois da jornada de trabalho ou estudos e aqueles que estavam prontos para desfrutar da noite. Era interessante notar a diferença clara que se fazia entre os dois grupos. Um mal conseguia manter os olhos abertos e segurar seus pertences enquanto sentados e os que não conseguiram sentar-se tinha dificuldade para manter-se em pé no vagão. O outro tinha dificuldades de se manter no lugar e era possível ver a expectativa transbordando em seus rostos. A única coisa que o unia todos ali era a vontade de chegar a seus destinos, exceto Priscila.

        Não demorou muito para chegar a estação que precisava descer, muitos desembarcaram com ela, afinal aquela era uma região típica de bares, ponto para Flávia, encontros às escuras em lugares vazios são perfeitos para filmes de terror e aquele não era o gênero favorito dela. Ainda era preciso andar cinco minutos de acordo com o aplicativo do celular e a cada passo Priscila tinha cada vez mais dificuldade de controlar sua ansiedade, a boca estava seca, as mãos um pouco trêmulas e mais uma vez pensou na sua cama e nas séries que poderia estar assistindo.

        Chegou ao bar indicado, o ambiente era agradável. O espaço não era muito grande, mas também nada muito intimista, a música era aprazível, e em um volume propício para quem desejasse conversar. Havia um palco e por ser sexta acreditava que provavelmente teria covert artístico.

    Priscila tinha seus lugares favoritos para ir a noite, mas quando se tratava de primeiro encontro ela nunca os sugeria. Teve um primeiro encontro em um de seus bares favoritos, a noite havia sido embaraçosa, as preferências não eram as mesmas, a conversa não ia adiante e o silêncio na mesa era ensurdecedor. Nunca haviam trocado mensagens depois daquele dia, mas acabaram se encontrando muitas vezes no mesmo bar. Quando Flávia sugeriu um lugar que ela nunca tinha ouvido falar, não precisou pensar nem por um segundo e aceitar a oferta, estava satisfeita com a escolha da amiga, mas um pouco intrigada pela amiga nunca ter lhe apresentado o lugar antes.

        Fora recebida pela sorridente hostess, a mesma perguntou se tinha a informação da mesa reservada, pois hoje era dia de apresentação especial, uma famosa banda cover local iria tocar sucessos dos anos 90 e todas as mesas haviam sido reservadas.

A notícia caiu como uma bomba, Flávia revelou tão pouco sobre o encontro que agora ela não sabia como responder. Definitivamente, aquela seria a última vez que aceitaria participar de uma “Operação CupiFlavia”.

        Tentou ser o mais educada possível, pediu alguns instantes para contactar a sua amiga, começou a procurar na sua bolsa o celular que havia acabado de guardar e parecia que o mesmo havia entrado em Nárnia e enquanto ainda o procurava ouviu uma voz masculina dizendo “Nós estamos juntos, ah, quero dizer, …, na mesma mesa”. Priscila congelou por um instante, não tinha certeza se ele se referia a ela, mas nunca desejou tanto para que fosse. Ela sempre prestou atenção aos detalhes, ela tinha verdadeira paixão pela língua portuguesa e amava como era possível reconhecer a personalidade das pessoas pelas palavras e expressões que elas usavam. O fato de ele não dizer – “ela está comigo” – era a diferença entre companhia e posse. O passado não lhe deixava esquecer disso.

        Tirou a atenção da bolsa para encarar o dono da voz a sua frente, e tudo o que viu foi seu sorriso. Finalmente, seus olhos se encontraram e Priscila não conseguia acreditar, ela não sabia como reagir, por um momento sentiu que suas pernas estavam prestes a involuntariamente sair correndo o mais longe possível dali, mas não era o momento de correr. Sentiu um calafrio correr toda a sua espinha e alcançar a nunca, as mãos começaram a tremer levemente. Sua mente parecia uma tempestade, flashes da sua juventude apareciam como relâmpagos, impedindo Priscila de completar qualquer pensamento lógico e, por um instante, sentiu-se em uma comédia romântica, onde o personagem principal sem nenhuma explicação lógica acorda magicamente 15 anos mais velho ou mais novo, e era como se naquele momento ela rejuvenescera 18 anos.

        “Oi” – ele disse mantendo olhando e sem perder o sorriso.

        “Marcel” – foi a única coisa que Priscila conseguiu dizer.

        “Eu não tinha certeza se você ia me reconhecer, faz tanto tempo”. – completou ele sorrindo ainda mais.

        Como não iria lembrar, como esquecer o sorriso mais bonito do ensino médio. Sim, houve um período em que o sorriso ficara escondido pelas espinhas e o tratamento que deixara as bochechas vermelhas e descascando, mas para Priscila ver o sorriso de Marcel ainda era o melhor momento do intervalo.

        A hostess parece ter percebido a hesitação de Priscila e interrompeu:

        “Excelente, só para confirmar, a mesa é para dois, a banda começa as 11:30 e tem duas sessões confirmadas, se quiser pedir qualquer música tem um bloco de pedidos na mesa; caso precise de algo tem um botão na mesa para chamar o garçom e é só pressioná-lo; se vocês tiverem qualquer dúvida é só me chamar, caso esteja tudo certo fiquem a vontade e aproveitem o show.” – disse pausadamente.

        Priscila parecia um pouco mais recomposta.

Marcel entregou um papel do bloco de pedidos, agradeceu por tudo, pediu pelo cardápio e dirigiu-se a Priscila:

        “Eu tinha todo um discurso preparado porque eu não achei que você ia me reconhecer, eu não me preparei para o segundo caso.” – sorriu novamente, mas dessa vez um sorriso desconsertado – “Olha, eu entendo se você quiser ir embora, mas eu realmente gostaria que você ficasse”.

        Priscila sorriu timidamente, ela sentia seu rosto queimando e temia que Marcel pudesse ver sua pele tornando-se rosada. Seu coração, aos poucos, voltava ao normal e ela se sentia capaz de articular-se melhor. Nem nos sonhos mais inacreditáveis, imaginou que pudesse estar em um primeiro encontro com o seu crush de adolescência.

        “Eu adoraria” – respondeu, assustou-se pelo seu ton formal, mas já era tarde.

        Marcel indicou a mesa em que estava, sentaram-se e logo depois alguém trouxe o cardápio. Ele não demorou para decidir-se no pedido e ainda sugeriu algumas opções ao ver que ela estava tendo dificuldades. Priscila entendera que a escolha do local havia sido dele e não de Flávia, e ficou satisfeita em saber que ele também havia evitado o jantar, mas sentia-se receosa por estar em um dos seus bares favoritos.

        Haviam tantas perguntas que Priscila gostaria de fazer, tantas coisas que ela queria dizer:

        “Eu preciso ir ao banheiro, você sabe onde fica? – questionou-se se havia voltado a ser uma adolescente, pois sentia suas bochechas ficando mais vermelhas a cada palavra que enunciava.

        Priscila não precisava usar o banheiro, ela precisava de tempo para colocar suas ideias no lugar. Olhou-se no espelho e tudo o que viu foi o reflexo de uma adolescente de 15 anos.

        Lembrou-se da primeira vez que notou Marcel, ela estava no segundo ano do ensino médio e havia sido transferida para outra classe por conta das suas notas. O 2B era com certeza muito melhor do que o 1E, era possível perceber a interação dos professores com a turma de que, finalmente, ela conseguiria estudar em paz, mas ainda assim era uma sala cheia de caras novas, e tentar fazer amizades não era exatamente o forte de Priscila. Por sorte, duas alunas que estavam na aula extra de teatro estavam na sala, e elas fizeram questão de incluí-la em seu grupo. Um dos meninos desse grupo sempre passava o intervalo com outros amigos, todos meninos, foi quando ela viu Marcel pela primeira vez.

        Desde o começo ela nunca pensou que teria qualquer chance com ele, afinal, ele estava sempre sorrindo, seu grupo estava sempre circulando pela escola durante o intervalo, conversando com quase todos os alunos populares da escola. Quando alguém como ele iria olhar a para alguém como ela?

        O fim do ensino médio chegou e eles não trocaram mais do que algumas dúzias de palavras durante os anos em que estavam na escola, e depois disso cada um seguiu seu caminho. Priscila começou a faculdade em outra cidade, o grupo de amigos se desfez, e como naquela época redes sociais não era como hoje e eles não mantiveram contato.

Anos depois, quando Priscila já havia esquecido de seu amor platônico, um dos poucos amigos que ela tinha do período do ensino médio estava falando dos crushes do tempo de escola, e foi quando revelara que Marcel era super tímido durante o colégio e ele nunca havia tomado coragem para falar ela.

        Priscila havia imaginado muitas vezes como teria sido se eles tivessem tido a chance de se conhecer melhor quando eles eram adolescentes e todas as vezes ela chegava a mesma conclusão, ainda bem que não havia acontecido. Ela era imatura e seu pai muito protetor e jamais teria aceitado o fato dela ter um namorado antes da faculdade. Em sua casa, tudo o que os pais queriam era que os filhos fossem para faculdade, tivessem um profissão que garantisse uma certa estabilidade financeira e só depois se preocupassem com a vida amorosa, mas os hormônios da adolescência eram mais fortes e tendo como conselheiros apenas os amigos, que eram tão imaturos quanto ela, Priscila engravidou ainda no primeiro ano da faculdade, logo que deixara a casa dos pais para estudar e sentiu-se livre para experimentar tudo o que os pais lhe proibiram.

        As semanas que se seguiram logo após a menstruação atrasada e o teste positivo de farmácia foram as mais tensas de toda a sua vida até hoje. Em um momento de desespero revelou a gravidez para seu melhor amigo da época, ele insistiu para ela ir ao médico e ela jamais esqueceria as palavras que ouvira na consulta “Eu preciso que você seja sincera do que você pretende fazer daqui para frente, eu sou a favor da mulher e eu prefiro recomendar um lugar que preserve a sua vida do que encontrá-la na emergência do hospital”. Priscila tinha apenas 18 anos, os pais tinham tanto orgulho de ela ter entrado em uma universidade pública que ela não tinha coragem de destruir os sonhos e esperança que os pais tinham nela, saiu do consultório do ginecologista com um cartão em uma das mãos e lágrimas.

        Seu amigo manteve-se ao seu lado o tempo todo, ele a acompanhou até a clínica, segurou sua mão e a confortou durante todo o procedimento e nos meses que se seguiram. Pesadelos, noite em claro aos prantos e um sentimento de culpa que ela ainda eram parte da sua vida, mas nos últimos anos tinha uma controle um pouco melhor sobre essa parte do seu passado e da sua decisão.

        Olhou-se no espelho, o aparelho ortodôntico havia dado lugar ao sorriso alinhado, o cabelo não estava mais preso como a maioria dos dias do tempo de colégio, mas não era apenas a sua aparência física que estava diferente, Priscila tinha conquistas e fracassos ao longo dos anos, havia amadurecido e não era nada parecida com a adolescente que passava os intervalos esperando pelo breve momento que veria o sorriso que iluminaria do seu dia, era uma mulher independente e capaz de iluminar o seu próprio caminho.

        Não era o momento de pensar no passado, se ele havia entrado em contato tinha que ser para conhecer a Priscila de hoje e não do tempo de escola. Por um momento, sentiu uma súbita confiança que não era muito comum a ela quando se tratava de questões emocionais. Sorriu, arrumou o cabelo e voltou para a mesa decidida a ter um primeiro encontro sem deixar que o passado interferisse de maneira negativa.

        “Tudo bem ?” – Ele parecia um pouco ansioso.

        “Sim, mas não posso negar que fiquei um pouco assustada, a Flávia não me deu nenhum detalhe de quem eu iria encontrar hoje e, de repente, é um encontro com o passado” – Priscila não se conteve e riu.

        Marcel sorriu mais aliviado e contou como havia visto um foto dela com a Flávia e mal podia acreditar que ainda tinham amigos em comum, mas na época Priscila estava namorando e ele achou melhor não interferir, tempos depois ele encontrou Flávia que deu as boas novas de que a amiga estava solteira, mas era ele quem estava namorando. Parece que CupiFlavia não se contenta com um “não” e, algumas semanas atrás, quando se encontraram ela sugeriu o encontro. Marcel temia que não tinha deixado um boa impressão ou impressão nenhuma nos tempo da escola, pois era muito tímido com garotas e, normalmente, por não agir muito, a maioria achava que ele era arrogante só porque era popular.

        Ambos conversaram bastante sobre suas vidas depois da escola. Era tudo muito agradável e natural, pareciam amigos que há anos não se viam, a única diferença é que nos trinta minutos que se seguiram haviam conversado mais do que em todo o tempo de colégio que se viam todos os dias.

        O bar foi aos poucos enchendo e ganhando mais vida, era impossível não notar como Marcel era conhecido pelas pessoas que frequentavam o bar, porque a cada cinco minutos ele acenava a alguém, ou alguém vinha a mesa para cumprimentá-lo, até mesmo os garçons o tratavam pelo nome. Em um determinado momento Marcel disse:

        “Mil desculpas, eu queria que a gente tivesse um momento especial e te convidei para um dos meu lugares favoritos, com uma das bandas que eu mais gosto, mas não levei em consideração que as pessoas aqui não iam me deixar em paz, se você quiser ir para outro lugar eu não me importo”.

        Priscila pensou por um momento e quando estava prestes a responder a banda começou a tocar sua primeira música e ela só teve a chance de acenar negativamente com a cabeça.

        Ela nunca havia parado para pensar na quantidade de músicas ela ainda lembrava a letra dos anos 90 e quantas memórias as músicas traziam. A banda era excelente, mas Priscila não queria ter interrompido a conversa e, às vezes, se pegava olhando para Marcel enquanto ele estava distraído com a banda.

        CPM22 – Um minuto para o fim do mundo foi a última música do primeiro set, todos no bar estavam eufóricos, era a música perfeita para terminar a primeira parte do show e deixar todos na expectativa para mais, a banda agradeceu a plateia e antes de deixar ao palco agradeceu particularmente Marcel por ter pedido a última música e para desejá-lo sorte.

        Marcel olhou para Priscila aterrorizado, ele balançava a cabeça de um lado para o outro sem parar e muito sem jeito disse que havia pedido a música, mas normalmente eles não mencionavam quem havia pedido. Cinco minutos depois o vocalista da banda estava na mesa, puxando uma cadeira e sentando-se ao lado de Marcel. Levantou a cerveja que tinha em sua mão e brindou, riu como quem sabia que havia deixado alguém em uma posição muito desconfortável e bebeu um gole da cerveja. Olhou para Priscila e repetiu a ação, levantou o copo, brindou e bebeu sua cerveja, mas dessa vez depois de rir ele disse:

        “Marcel é de casa, ele vem aqui desde quando ninguém conhecia a gente, ele sempre traz um monte de amigos para os nossos shows, mas hoje não, hoje ele só trouxe você, eu não tenho dúvidas de que há uma boa razão para isso. Cuida bem dele para gente, a banda toda gosta muito dele” – riu de novo, levantou mais um vez o copo e brindou com os dois dessa vez.

        Marcel parecia desconfortável, mas Priscila estava adorando toda a atenção que as pessoas davam a ele e a atenção que ele dava a ela. Ela sorriu e disse:

        “Eu quero ficar, eu gosto daqui”.

        Ele sorriu e os dois continuaram a conversar, dessa vez sobre as banalidades da vida, séries, filmes, internet, e a lista de assuntos se seguiu até que o segundo set começou, e eles continuaram a conversar de onde haviam parado até o início do terceiro set e quando o bar estava tão vazio quando eles chegaram um dos garçons avisou que era hora de fechar.

        Marcel tentou pagar a conta, mas Priscila insistiu em dividir. Ele ofereceu ir no táxi com ela, mesmo que sua casa não fosse caminho, mas ela agradeceu. Trocaram telefone e adicionaram um ao outro no messenger. Ambos tiveram uma noite tão agradável que nenhum dos dois estavam dispostos a arriscar.

        Antes de entrar no táxi eles trocaram um longo abraço e Priscila beijou o rosto de Marcel bem próximo da boca, mas eles não se beijaram. Seus rostos ficaram bem próximos por alguns segundos, mas o impaciente taxista não estava disposto a ficar tanto tempo parado. Ainda no táxi trocaram as primeiras mensagens e prometeram que iriam se ver em breve.

        Priscila chegou em casa, viu se o gato estava bem, tirou a maquiagem, tomou banho e deitou-se na sua cama fria e vazia, eram 5:30 da manhã de sábado, ela fechou os olhos e sorriu, um sorriso que faz parecer tudo mais fácil, que faz inveja naqueles que não conseguem mais sorrir com a mesma facilidade.

        A noite havia sido perfeita, Marcel era muito melhor que ela imaginara, ainda mais porque ele era real, o passado ainda iria assombrar sua vida muitas vezes, mas ela sentia cada vez mais forte para enfrentá-lo.

        Há momentos em que a perspectiva sob um determinado aspecto da vida muda e parece que o mundo precisa de cinco minutos para se reajustar a essa nova ideia e tudo parece ter uma importância insignificante. Priscila estava vivenciado esse momento, ela não se sentia solitária por estar sozinha na cama, e nem apreensiva para que Marcel fosse o tal homem que as tias falavam, talvez esse vazio só poderia ser preenchido por ela mesma e enquanto seu coração não estivesse completo era não estaria pronta para amar.

Published by Tassia Kespers

Escritora, professora, tradutora, revisora, mãe e exploradora nas horas vagas.

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