Trinta e Cinco

Eu acredito que nós somos hoje o reflexo do nosso passado, tudo o que aconteceu em nossas vidas e o impacto que esses momentos tiveram. Ao mesmo tempo, a cada ano que passa eu me torno mais consciente dessa influência e isso me permite ter um controle melhor de como as experiências passadas afetam minha decisões futuras.

        É estranho quando você finalmente nota que está amadurecendo. Você se encontra em situações, mas reage de maneira diferente. Uma das coisas que mais me irritava no trabalho era a falta de consistência e planejamento, por exemplo, quando a escola pedia para eu preparar uma atividade X com meus alunos, não havia muitas instruções, eu tinha que fazer aquilo que eu acreditava ser correto e torcer para que fosse do agrado do chefe. Minha ansiedade ia a milhão, eu queria que tudo fosse perfeito, mas ao longo do caminho as dúvidas surgiam, ninguém respondia e ao final eu nunca tinha um feedback para saber se estava de acordo com o plano deles. Hoje, assim que eu recebo a notícia de qualquer projeto, eu ainda questiono alguns pontos para ter certeza se eu estou indo no caminho certo, mas a minha preocupação em ser perfeita passou, eu descobri que eu nunca teria certas respostas porque a pessoa responsável por respondê-las não tinha a informação.

        Outra ponto que é muito interessante para mim foi observar o comportamento de certas pessoas ao seu redor e perceber que hoje já não condiz mais com o meu perfil, não apenas isso, eu julgo muito menos a atitude do outro e torço para que com o tempo ele também perceba que talvez aquela não seja a melhor resposta para a situação. Sim, eu não gosto de ler livros de autoajuda, no entanto comecei a ler Os 7 hábitos de pessoas altamente eficazes (ainda não terminei, porque a proposta do livro é colocar em prática o que se ensina) e ele despertou-me para o fato de que cada um tem a sua própria trajetória, e é preciso respeitar cada indivíduo por suas ações, mais do que isso, é preciso focar na minha vida e no que realmente diz respeito a minha pessoa para que eu seja uma pessoa melhor para mim mesmo do que tentar avaliar se alguém tem agido de maneira correta ou não.

Focar em mim

        Por mais estranho que pareça voltar a atenção a mim foi uma das coisas mais altruístas que eu já fiz. Eu me lembro que toda vez que alguém me perguntava o que eu queria ser quando crescer, dificilmente eu dava a mesma resposta. Eu não tinha certeza o que eu queria fazer e meus interesses continuavam mudando com o passar dos anos. Quando chegou o momento de fazer as inscrições para o vestibular (na minha época ENEM não valia de nada), eu não tinha certeza qual curso escolher, eu sabia que queria algo na área de humanas (pelo menos isso), mas o curso foi um grande tiro no escuro. Eu passei no vestibular e ingressei na faculdade logo que terminei o ensino médio, não havia tempo para rever minha decisão.

        Eu queria que meus pais tivessem orgulho de mim, queria que as pessoas me respeitassem pela minha profissão e foi assim que eu concluí meu curso de Letras. Recém-formada, com um filho pequeno para criar, eu não tinha tempo para as questões que eram realmente importantes, eu precisava de um emprego, eu precisava ser responsável, eu tinha que aprender a ser mãe.

        Morando no Brasil eu cheguei a trabalhar em 3 escolas ao mesmo tempo, alguns dias da semana eu tinha aulas nos três períodos, aos finais de semana eu tinha aulas para preparar, textos para corrigir e um filho para cuidar. Eu vou ser sincera, se não fosse o suporte da minha família eu jamais me encontraria onde estou (geograficamente, financeiramente e psicologicamente). O pouco tempo livre que eu tinha era basicamente para dormir. Hoje eu tenho uma carga horária muito menor, meu filho está com 14 anos e a atenção que ele precisa é completamente diferente e eu tenho tempo suficiente para ler, observar, ouvir, refletir, planejar e aprender.

        Focar em mim foi o princípio para valorizar a voz do outro. Reconhecer as minhas prioridades e meus desejos, sem querer agradar ninguém não é tão simples quando se imagina e ao longo do processo eu percebi que assim como eu me frustro com o outro por ele não compartilhar da minha prioridade ou padrões, o outro também se decepciona por eu não entender o que para ele é básico.

O Segredo

        O segredo para ser tão orgulhosa por chegar aos trinta e cinco anos, solteira, professora e mãe começa ao permitir-me errar. Eu errei como mãe, errei como professora e errei em todos os meus relacionamentos e, com certeza, foi equivocar-me no futuro, mas é preciso errar.

        Além de errar é preciso ter tempo para refletir sobre o que não deu certo, permitir-se ser culpado pelo que não funcionou e não apenas apontar dedos, pensar em diferentes soluções para problemas que nos cercam há anos, talvez não serão soluções permanentes, talvez levarão a mais uma decepção, mas é preciso apreciar o passos dados em direção àquilo em que se acredita.

        Acima de tudo, permita-se estar de bem consigo mesmo, sempre haverá alguém para dizer que você é muito melhor do que pensa e mais ainda para dizer o quanto você precisa melhorar, mas ao final do dia (ou qualquer outro momento do dia), ao olhar-se no espelho, ou voltar as atenções para si mesmo(a), é preciso valorizar-se, é preciso reconhecer todo o esforço e o quanto você tem tentando ou conseguido progredir naquilo que você planejou, ou qualquer outra benefício que tenha vindo por consequência.

Published by Tassia Kespers

Escritora, professora, tradutora, revisora, mãe e exploradora nas horas vagas.

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