A história do gato assustado

O ano é 2016, eu havia recém chegado em Guiyang, o fato de não ser a primeira mudança para a China me deixou extra confiante de que dessa vez seria mais fácil o processo de adaptação e separação dos familiares e amigos. Eu não sei descrever o tamanho da minha decepção. A cidade, as pessoas, algumas inconsistências no trabalho, cada dia algo diferente acontecia. Um mês já havia passado e a cada dia o meu foco era encontrar outro lugar para morar, porque eu não sabia como ia fazer para me acostumar àquilo tudo. Foi quando um estrangeiro compartilhou a história do gato assustado que ele encontrara no meio da rua, mas não podia adotar. 

Eu cresci pedindo um cachorro, levou anos para que minha família finalmente tivesse um e quando a Vicky chegou eu já estava no ensino médio e logo depois comecei a faculdade longe de casa. Eu nunca entendi direito a responsabilidade e a conexão que a gente cria com esses bichinhos uma vez que eles entram nas nossas vidas. 

Eu lembro que quando o André era recém-nascido, às vezes, enquanto ele tirava um cochilo a tarde a gente dizia para a Vicky tomar conta dele, ela ficava próximo ao quarto e vinha nos avisar quando ele acordava. Era avistá-la e ter certeza de que o André estava prestes a chorar. 

Ver o André crescendo dividindo pão de queijo e levando lambida na cara era muito especial. Houve momentos que o André adorava ocupar a cama da cachorra e ela em momento algum foi agressiva com ele ou qualquer outra criança que tentasse se aproximar. Esse tipo de ligação entre animais de estimação é algo que não dá para forçar, assim como é quase impossível mudar a natureza do animal, que dificilmente será violento a menos que seja instigado a tal.

Quando chegou o momento da Vicky partir eu não estava em casa, aliás, por mais que eu tivesse pedido tanto por um cachorro eu nunca fui uma boa dona para ela. Eu não levei para passear o suficiente, não limpei, alimentei ou escovei o tanto que eu deveria, minha mãe foi quem mais cuidou dela, estava lá quando os filhotes nasceram, sabia quando era hora de vacinar, e mesmo anos depois de ela ter morrido um dia me disse que toda vez quando é hora das refeições, às vezes, ainda vem a lembrança de que era hora de dar comida para a Vicky, que sempre foi servida primeiro que todo mundo em casa.

Antes da razão se manifestar eu já tinha entrado em contato e adotado o Snow, eu sabia que um animal de estimação não iria resolver meus problemas, mas com certeza saber que eu não voltaria para uma casa vazia todos os dias era um começo.

Demorou um pouco, mas ele acabou cedendo e eu podia pegá-lo por alguns minutos e cada dia minha casa se tornava um pouco mais agradável de ficar. Ele já me esperava na porta, a noite trazia o bichinho de pelúcia para que eu jogasse para ele buscar, e sempre estava por perto para ouvir a voz do André enquanto eu o auxiliava na lição de casa. 

O Snow foi se tornando um suporte emocional que eu jamais imaginei que um gato seria capaz de ser. Eu morava no primeiro andar e arrisquei deixar a janela aberta para ele explorar as redondezas. Ele adorava, e sempre voltava, o que me fazia acreditar que ele realmente gostava da minha companhia, por mais arredio que ele fosse com humanos. Um dia ele voltou machucado, e eu nunca mais tive coragem de abrir minha janela. 

Quando eu fui ao Brasil, minha colega de trabalho havia mudado para o apartamento em que eu morava e ela ficou responsável por ele, ela tinha três gatos e eu acreditei que talvez isso o ajudasse, duas semanas depois ele fugiu de casa e eu achei que eu nunca mais o veria. 

Logo que voltei, eu mudei de apartamento, mas eu ainda tinha acesso ao antigo, eu visitei algumas vezes, passei horas por lá para ver se ele ia sentir meu cheiro, minha presença. Não demorou, eu recebi uma mensagem de que o Snow havia sido visto próximo de casa. Eu voltei ao meu antigo apartamento, havia comida de gato por conta dos gatos que ela tinha. Fui até o lugar que ela havia avistado ele, coloquei a ração, chamei por ele e esperei. Dois minutos depois um gato branco pulou para fora pela janela do apartamento abandonado no primeiro andar, ele estava magricelo e sujo, mas era ele, tinha que ser.

Trouxe para a nova casa, dei banho, tirei todas as pulgas e carrapatos que encontrei. Ele não pareceu me reconhecer, e eu comecei a ter dúvidas de que era meu Snow. Na primeira noite ele estava arisco, miava, não parecia entender o que estava acontecendo, eu o peguei, coloquei próximo ao meu pescoço como costumava fazer, ele se acalmou, deixou eu acariciá-lo e eu senti a marca da ferida de quando ele tinha liberdade de explorar a comunidade. Ele também me reconheceu e não havia mais dúvidas entre nós. 

Algum tempo se passou e uma amiga muito próxima ia deixar a China, ela estava enfrentando dificuldades para levar a gata que tinha comprado e disse que eu era a única pessoa que ela confiava para cuidar da Cleo. Meu filho não podia conter a felicidade, teríamos dois gatos, um para mim e outro para ele. Eu confesso que por algum tempo eu não tinha certeza se era a decisão certa, um gato já traz preocupação, dois parece demais, mas o André tinha acabado de chegar e o Snow ainda era o mesmo gato assustado que não interagia fácil. 

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A Cleo chegou e fizemos tudo o que os vídeos do Youtube disseram para não fazer. Em menos de 48 horas os gatos já se toleravam e no final de semana eles já estavam brincando juntos. A Cleo estava acostumada aos humanos, a casa dela, diferente da minha, tinha sempre visita, e ela adorava brincar, sempre que alguém ia a algum cômodo diferente da casa ela acompanhava, ela provocava o Snow o tempo todo e a noite era possível ouvir os dois correndo pela casa. Talvez essa seja a sensação boa de casa cheia que as pessoas tanto falam.

E lá se vão quatro anos. O Snow ainda odeia qualquer barulho alto ou visitas, a Cleo adora seguir qualquer um pela casa e normalmente ela deita na frente das pernas da pessoa que quase cai tentando evitar de pisar nela, apesar de tudo, eles são os gatos mais fáceis de cuidar que eu já tive (e os únicos que eu tive).

Na China, eu tive a primeira oportunidade de ser dona de verdade de um animal de estimação, eu quem limpo, alimento, cuido, levo para tomar vacina e nesse período eles nunca tiveram nenhum problema muito grave (exceto o machucado do Snow que eu nunca vou saber como aconteceu), e em troca eu tenho o carinho que esses bichanos me proporcionam todos os dias. 

Ficar longe da família é uma das decisões mais difíceis para quem acredita que ser e estar presente na vida dos filhos é fundamental. Eu não sei quantas vezes o Snow esteve ao meu lado enquanto eu precisava de apoio para continuar persistindo na distância que proporcionaria melhores oportunidades no futuro. E por mais estranho que possa parecer, era como se ele entendesse de que sua presença era necessária. 

A ciência pode ainda não ter encontrado formas de explicar porque nossos animais de estimação são tão importantes na vida da gente, mas muito provavelmente isso se deve ao fato de não ser uma questão científica, mas de amor.

Published by Tassia Kespers

Escritora, professora, tradutora, revisora, mãe e exploradora nas horas vagas.

3 thoughts on “A história do gato assustado

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