O melhor investimento da minha vida

 “Todo mundo é capaz de guardar dinheiro” – disse alguém que nunca foi a pé ao shopping com o dinheiro para uma casquinha e passou três horas olhando vitrines e aproveitando o ar-condicionado do estabelecimento. Sim, vivemos em tempos de pandemia, mas não é de hoje que ter economias ou dinheiro investido é privilégio para poucos.

Semana passada eu estava assistindo a um podcast e o entrevistado dizia como seus pais haviam lhe ensinado de maneira limitada sobre educação financeira, e o fizeram porque eles nunca tiveram dinheiro suficiente para fazer algo diferente de pagar contas durante toda a vida ou entender como lidar com o dinheiro em um patamar que lhes permitia planejar algo. 

Minha percepção de criança não me permite julgar com clareza o quanto a falta de dinheiro afetava a minha rotina. Raramente a gente ia a restaurantes, mas nunca faltou comida em casa. Nem sempre minhas roupas eram novas, mas eu sempre tive o que usar. Eu nunca tive os brinquedos mais populares e de lançamento, mas não faltava criatividade para me divertir e, hoje, eu não tenho traumas pelo que a falta de dinheiro me privou, pelo contrário. Eu sempre vi meus pais trabalhando muito para que a gente tivesse o melhor que eles podiam oferecer e, em casa, eu e meu irmão sempre ouvíamos a mesma coisa “Estudem muito, porque só os estudos vão abrir as portas para um futuro melhor”.

Muitos anos depois, uma formação acadêmica, uma pós-graduação, o conhecimento em diferentes línguas e alguns cursos com certificação internacional eu ainda não tenho economias ou dinheiro para investir. Não é de hoje que eu tento entender onde estou errando, aquela sensação amarga de trabalhar tanto e não ver nenhuma recompensa financeira ao final de mais um ano é um tanto incômoda. Será que só uma boa educação não é o suficiente?

Recentemente, meu feed nas redes sociais começou a promover anúncios com sugestões de trabalho remoto e independência financeira. Claro que não foi por acaso, eu havia pesquisado sobre opções de investimento. Eu não tinha dinheiro, mas estava tentando formar um plano. Eu só não contava com o quanto eu iria acabar me deixando influenciar pelo algoritmo, ter 90% do conteúdo relativo a investimento, trabalho remoto e ganhar dinheiro online drenou toda a minha motivação e energia.

No entanto, ao mesmo tempo que eu tenho no coração a esperança que se eu trabalhar corretamente e continuar investindo na minha educação tudo vai dar certo, de que um dia eu vou poder olhar para o saldo do meu banco e saber que eu posso descansar a cabeça no travesseiro e dormir “plena”, eu me preocupo com os sacrifícios que precisam ser feitos para chegar a esse objetivo de forma rápida e consistente.

Como eu já disse, minha infância não foi das mais fáceis, mas quando eu era adolescente meu pai tinha um emprego melhor e nós tínhamos um pouco mais de conforto em casa. Meu pai tinha a máxima “Aproveita enquanto tem, porque a gente não sabe amanhã”. Eu sei, é um pouco controverso ouvir que agora você pode ir ao shopping e comprar algo que você não planejou, mas a sensação de poder fazê-lo é satisfatória. E com esse pensamento, e um pouco de sorte porque o trabalho do meu pai era viajando, eu tive a chance de conhecer muitos lugares no sul do país e visitar as Cataratas do Iguaçu pela primeira vez. Não eram viagens luxuosas, mas para quem conta nos dedos quantas vezes foi a Praia Grande quando morava em Santo André, cada viagem e cada diária de hotel era mais que suficiente para superar todas as minhas expectativas.

No período da faculdade eu tive dois empregos, o primeiro foi uma pesquisa no sistema de ônibus municipal, eu trabalhava das 5:00 a.m. até às 11:00 a.m., e conciliava com as aulas da faculdade que começava às 2:00 p.m. e, às vezes, eu tinha aula no último período da noite e voltava para casa por volta das 10:00 p.m.. A pesquisa durou 3 meses (se minha memória estiver correta), depois eu ainda trabalhei alguns poucos finais de semana como garçonete em uma pizzaria rodízio. O dinheiro que eu juntei foi todo usado para a minha primeira viagem internacional para a Argentina, com direito a uma segunda visita às Cataratas, dessa vez pelo lado argentino e mais de quinze dias conhecendo Buenos Aires guiada por uma amiga que fazia intercâmbio lá. 

O mesmo aconteceu depois de formada e com filho, em que o pouco que sobrava (salário de professor iniciante) e, muitas vezes, com a ajuda do meu pai, eu conseguia visitar algum lugar novo, ou algum amigo, ou fazer parte de algum momento especial na vida dos meus amigos, como casamento.

Na China, como estrangeira, eu não tinha direito a cartão de crédito e tudo que eu queria comprar tinha que ser à vista. Esse pequeno detalhe de saber que eu não teria a chance de parcelar nada em 3 prestações me ensinou a administrar meu dinheiro um pouco melhor. Meu primeiro ano aqui eu recebia um salário baixo, mas eu consegui guardar algum dinheiro, como eu não sabia se um dia eu teria a oportunidade de voltar a China o pouco que eu juntei eu investi em viajar pelo país, fui ver a muralha, conheci o exército Terra Cota, escalei montanha, fui para praia e ainda conseguir comprar o Playstation 4 para o André antes de voltar para casa. Antes de voltar para casa, mais uma vez com a ajuda dos meus pais, eu pude ficar 15 dias na Europa.

Em 2016, quando eu voltei para cá, eu morei um ano sozinha antes de ir buscar meu filho, eu tive a chance de economizar um pouco mais e a empresa que eu trabalhava tinha uma bonificação ao final do contrato. Quando eu fui buscar meu filho, eu deixei ele preparar a mala dele (ele tinha 10 anos na época). Disse para colocar na mala todas as roupas que serviam e gostava, ele desembarcou na China com um shorts e três camisetas, mas eu tinha me preparado para quando ele chegasse, roupas aqui são baratas, se você não se importar para marca, e logo ele tinha mais opções do que no Brasil (aqui faz frio e a gente precisa de mais roupa, diferente do Goiás que é verão o ano inteiro).

Sim, eu acredito que o dinheiro pode solucionar muitos problemas e eu me sinto privilegiada de poder saber que eu posso me organizar um pouco melhor, e guardar dinheiro para comprar algo que eu o André tenhamos vontade, mas eu volto ao problema inicial, quando vou começar a investir num futuro não tão próximo?

Em uma dessas noites que eu não conseguia dormir eu olhei para trás e lembrei de tudo o que já conquistei, das viagens que eu fiz e que jamais irei esquecer, dos lugares que eu levei o André, mesmo quando o dinheiro era curto e que ficarão para sempre na memória dele, dos dias em que o gosto amargo dos objetivos não alcançados e que pareciam inalcançáveis foram substituídos por um jantar caro com direito a sobremesa e algumas horas em que eu me limitei a aproveitar àquele momento. 

Eu ainda não tenho investimentos, ou um plano concreto de como ou quando eu irei investir meu dinheiro (quando tiver) além dos próximos três meses, mas eu vou fazer o possível para que toda a noite em que as inquietações financeiras vierem me perturbar à noite eu me lembre de todo o investimento que eu fiz criando lembranças e pequenos momentos de felicidades que não poderão ser comprados no futuro, eu vou lembrar dos amigos que eu fiz e cultivei porque eu fui honesta de quando eu podia ir, ou não, tomar um café ou fazer uma viagem. Eu vou lembrar de que é preciso ter equilíbrio, nem tudo é dinheiro, o futuro está sempre à nossa frente, ele é inalcançável e se não aproveitarmos nada do presente talvez a vida terá valido de muito pouco. 

3 thoughts on “O melhor investimento da minha vida

  1. Olá meugraodeareia , agradeço a sua franqueza em compartilhar com seus leitores a questão financeira, que é um tema sensível e íntimo. Vivi por muito tempo a questão de ser cigarra ou formiga. Optei em ser mais formiga que cigarra o que permitiu parar de trabalhar aos 53 anos ,após os filhos se formarem e serem independentes. Essa foi a minha escolha que não me arrependo, mas cada um sabe onde o calo aperta. Entendo que você ter investido na sua formação e numa carreira internacional é um plus para você ter uma posição melhor remunerada em breve e fazer finalmente o seu pé de meia. Só o fato de te incomodar o fato de não poupar já é um primeiro passo.
    Você está no caminho certo, fique tranquila
    Abraço
    Rui

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    1. Obrigada. Como você disse cada um sabe onde aperta, o ideal seria poder fazer os dois guardar dinheiro e investir. Eu ainda acredito que existe uma chance que a internet nos dê mobilidade para trabalhar e viajar e mesmo se a aposentadoria venha tarde, seria bom aproveitar os anos trabalhando conhecendo novos lugares.

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