O que eu aprendi na China – Parte 1

Eu já tinha pensado em escrever um pouco do que eu aprendi como expatriada em terras asiáticas, mas acredito que não há oportunidade melhor para isso, considerando a minha celebração pessoal de ter chegado aqui e o aniversário da República Popular da China que comemora 72 anos em 2021 são em Outubro. Eu tentei ilustrar a lista com algumas histórias que me trouxeram tais aprendizados, eu acabei me empolgando e por isso eu vou dividir a lista.

Eu cheguei no começo de um dos maiores feriados da China (tem um post sobre os feriados chineses se você tiver curiosidade), foi um pouco confuso, mas excelente ao mesmo tempo porque me deu alguns dias para “cair a ficha” e começar a me adaptar. Foi uma viagem longa, sai de Goiânia pela manhã, fiz escala em São Paulo, vi meus primos, tios e ainda deu tempo de ir até a casa da minha tia para tomar café ( 🙂 ), embarquei à noite, fiz escala na África do Sul, cheguei na China na madrugada do dia seguinte. Chegando em Beijing a minha chefe estava me esperando. Eu tentei meu melhor e soltei um “Ni Hao”, ela riu e disse “Ninguém fala Ni Hao aqui”. E assim começa minha história de amor e ódio, altos e baixo com a China. 

Ainda naquela noite, nós entramos no carro e percorremos 146km em direção a Tianjin. Eu não pude ver nada da capital, porque o aeroporto é longe da cidade e há acesso direto à rodovia, mas chegando em Tianjin (onde eu iria morar) eu não pude deixar de notar a iluminação da cidade, o vermelho predominante em letreiros de LED, em quase todos os prédios logogramas (e não ideogramas) chineses ao longo dos mesmos ou no top dos edifícios mais altos. Vindo de um país de recorrentes crises energéticas, eu me lembro de me deixar encantar pela cidade. Não demorou muito para descobrir que isso não era algo especial de uma cidade, mas a China como um todo, das ruas mais populares as mais desertas.

Hong Kong
Shanghai
Chongqing
  1. “Celebridade”
Haikou – Parque geológico

Eu morava no Norte da China, mais de 10 milhões de habitantes e ainda assim as pessoas passavam por mim e apontavam, tiravam foto sem pedir – por uma fração de segundo você entende porque as celebridades se irritam quando não estão trabalhando e querem tirar foto – eu não entendia o motivo de tanta curiosidade. Eles comentavam dos meus olhos grandes, minha pele branca e queriam tocar no meu cabelo. Eu estranhei muito, ainda mais porque os mais curiosos não falavam inglês e eles olhavam, cutucavam o colega e apontavam para mim, os pais faziam os filhos parar o que estavam fazendo para me ver e riam.

Quando o André chegou foi a mesma coisa, ele se incomodava no começo, às vezes não queria ficar em um lugar porque ele percebia que estavam tirando foto ou filmando, mas depois ele acostumou, mais tarde quando pediam para tirar foto ele fazia pose.

Beijing – Praça da Paz Celestial

Em grandes cidades como Xi’an, Guangzhou, Shanghai eles não têm o mesmo comportamento, há muitos estrangeiros por lá e tudo fica mais fácil, o que não significa que não pode acontecer. Uma vez, eu estava em Beijing com uma brasileira, estavamos na praça da Paz Celestial, em frente a Cidade Proibida, ela estava turistando, eu fui acompanhá-la. Ela tinha uma bandeira do Brasil na bolsa e lá ficamos por uns 10 minutos posando para fotos com grupos de chineses que viam duas brasileiras, segurando uma bandeira do Brasil e eles não resistiam a tentação de pedir para tirar uma foto com a gente.

Em Guiyang, quando eu mudei, ainda era popular a profissão de white monkey (macaco branco), é quando a empresa contrata estrangeiros só para fazer figuração em um evento, tirar foto fingindo que faz parte da empresa para criar status para a mesma. Bares e restaurantes na noite de inauguração faziam o mesmo, estrangeiro não pagava, mas os flashes era o preço por estar lá. Hoje, isso já não acontece com tanta frequência, o mesmo vale para os olhares curiosos de quando eu cheguei, ou talvez com o tempo eu aprendi a ignorar mais tais situações. 

  1. Comida, mais que uma refeição 

“Existe uma piada chinesa que diz que um estrangeiro veio para a China para conhecer a cozinha daqui, anos se passaram e ele ainda está em Sichuan.”

Isso é para ilustrar o amor e o orgulho que os chineses têm pela cozinha  milenar e sua vasta variedade. Sendo assim, se você disser para um chinês que pretende visitar algum lugar na China, a primeira coisa que ele vai lhe recomendar são quais pratos, iguarias e doces que você precisa experimentar naquela cidade. Em aeroportos e estações de trem, o que você mais vê são chineses com sacolas recheadas de guloseimas da região que eles visitaram para dar de lembrança para a família e amigos. 

Escorpião

Se algum chinês lhe convidar para sair, com certeza você vai acabar parando em algum lugar para comer e é considerado uma ofensa se você recusar, e foi assim que eu comi, cérebro de porco, ovo de cem anos, cabeça de pato, torta de feijão, etc (NÃO, para a decepção de muitos, nunca me ofereceram nenhum inseto, cachorro ou rato para comer aqui. Eu experimentei escorpião, mas eu estava com a brasileira que eu citei anteriormente, e só tinha turista comprando inseto, com certeza eles só estão ganhando dinheiro em cima da gente).

A mãe da minha chefe que cuidou tão bem de mim

No meu primeiro ano na China, eu passei a maior parte do tempo isolada, e a mãe da minha chefe sempre me convidava para jantares na casa dela ou em restaurantes. Ela amava, porque de todos os estrangeiros que ela conheceu eu era a única que comia de tudo, ela colocava comida no meu prato e eu não a contestava, ela montava meu rolinho de pato de Pequim e eu me sentia em casa, porque o brasileiro também tem um pouco disso, mas minha chefe morria de vergonha e vivia se desculpado, porque ela sabia que tal hábito não é bem visto em muitas culturas. 

  1. Viajar, explorar, conhecer
Beijing – Ano Novo Chinês 2014

Era começo de fevereiro em 2013 e o ano novo chinês estava se aproximando, eu já tinha passado o natal e ano novo sozinha em casa, e não estava fácil lidar com a saudade. Eu ainda morria de medo de me perder, meu chinês não estava progredindo como eu esperava, pouquíssima gente sabia falar inglês, pelo menos nos lugares que eu frequentava, mas eu não podia continuar esperando por um milagre. Na manhã do ano novo eu levantei antes do sol, peguei o metro até a estação de trem e comprei minha passagem para Pequim. Passei o dia explorando a cidade, fui a um parque onde várias apresentações estavam acontecendo simultaneamente. O vermelho predominava em todas as direções, foi um dia bom, apesar de não ter achado nada para comer, a não ser fast food, apesar de ter me perdido e me achado muitas vezes eu sobrevivi, consegui me comunicar o suficiente para chegar em casa exausta, faminta, mas feliz por ter conhecido um pouco mais da cultura chinesa e por ter sido capaz de explorar a cidade por conta própria. 

Ano Novo Chinês 2013

Eu passava meu tempo livre procurado lugares que eu queria visitar e que seriam acessíveis para mim, e assim, por motivos de trabalho ou lazer, eu conheci algumas cidades da China, todas foram importante de alguma forma, para Pequim eu ainda fui três vezes antes de encerrar meu  primeiro ano (eram 20 minutos de trem bala) e mesmo que eu evite visitar a mesma cidade mais de uma vez porque ainda há muitas na minha lista, eu ainda quero voltar a capital pelo menos mais uma vez, porque o André ainda não conhece. 

Xi’an tem um espaço especial no meu coração, eu passei menos de 48 horas, mas foram intensas e recheadas de emoções. Era para eu ter ido e encontrar um amigo chinês, um dia antes de eu embarcar ele me mandou mensagem dizendo que não estaria lá e que uma prima dele ia ser minha guia. Ele ainda havia me ajudado com a reserva do hotel e disse que a diária custava 20 reais com direito a uma cerveja. Eu não sabia o que esperar e a ansiedade pela mudança dos planos me devorava. 

Mais uma vez eu sai antes do sol nascer de casa, cheguei em Xi’an e peguei um ônibus do aeroporto a parte central da cidade, estava chovendo, encontrei a tal prima uma hora depois do combinando, e só então começamos a explorar a cidade. O tempo já estava firme e muito quente, claro que a primeira parada foi um restaurante, comemos sanduíche de carne de jumento. A chinesa era muito atenciosa, o irmão dela se juntou a nós mais tarde e passamos um dia muito agradável, a cidade é E-S-P-E-T-A-C-U-L-A-R.

Andamos o dia inteiro, visitamos os principais pontos turísticos da cidade antiga (Xi’an foi capital da China por algumas dinastias) e ainda sobrou tempo para lembrancinhas. Um pouco antes de anoitecer, como estava muito calor, a gente foi ao mercado para andar pela área dos congelados (mais brasileiro que isso não existe), depois de assistir o show de luzes que era famoso na cidade, eles me levaram até onde eu iria me hospedar. O hostel era muito bom, limpo e organizado. O rapaz do bar (eu tinha direito a uma cerveja) não parou de falar de futebol comigo (ele usando o pouco de inglês que ele tinha e eu tentando usar o mandarim que eu havia aprendido), eu estava vestindo a camisa do Palmeiras e ele amava o esporte. 

No dia seguinte, encontrei novamente a prima e o irmão que me levaram para tomar o café da manhã tradicional em Xi’an (um restaurante pequeno, bem simples, mas de tempero sensacional), depois fomos visitar o exército Terracota, o pai dela nos levou de carro, tendo em vista que era longe da cidade. Chegamos cedo e tivemos que esperar os portões se abrirem, estava muito calor, mas eu estava ávida pela oportunidade de ver com meus próprios olhos aquilo que eu só tinha visto nos livros de história, na verdade era capa de um dos meus livros de história. Foi uma experiência surreal. Naquele dia ainda deu tempo de ir a casa dela, visitar mais um parque e voltar para Tianjin sabendo que jamais iria esquecer aquela viagem.

  1. Mantendo as aparências, disfarçando as evidências

Parafraseando Chitãozinho e Xororó, uma das questões culturais mais delicadas e que, provavelmente, mais incomode os estrangeiros é o “losing face”. O chinês tem dificuldade de assumir um erro, o patrão tem sempre razão, não é educado apontar as falhas de uma pessoa, companhia ou o que for por aqui.

“Face” aqui pode ser traduzido por reputação ou status social, ou seja, quando os pais colocam os filhos para aprender instrumentos musicais, línguas estrangeiras, artes, dança, etc. eles não estão apenas pensando no melhor para os filhos, eles usam como forma de mostrar o poder aquisitivo e tentar ter uma reputação melhor em relação ao outro. 

Mulheres acima dos 30 e solteiras são consideradas sobras (tem mudado aos poucos, mas bem aos poucos), ou seja, a família e a mulher perdem reputação por não ter consigo um bom casamento antes, e quando eu digo bom casamento eu estou falando de negócio mesmo, a burguesia chinesa só casa se valer a pena financeiramente. As famílias se envolvem no casamento, e, normalmente, ambos terão relacionamentos fora do matrimônio e tudo não passou de uma formalidade para unir as duas fortunas e todo mundo sabe disso.

Os exemplos citados acima pouco afeta os expatriados, assim como eu não entendo certo costumes daqui eu tenho certeza de que eles não entenderiam muitos dos nossos costumes. Eu me lembro que desde as minhas primeiras semanas na China a minha maior decepção estava nas tentativas frustradas de me comunicar que acabavam em risada, ou nas fotos tiradas sorrateiramente e acompanhadas de risadas sem graça, e o pior de todos quando eu relatava tais situações para um chinês que entendia inglês e ele também ria. 

Por anos eu me irritei, eu não conseguia entender o que havia de tão engraçado, até que, finalmente, uma luz (eu não me lembro quem foi o anjo) me disse que o riso era a forma que eles tinham para mascarar o fato de eles perderem a “reputação” deles. A curiosidade, a dificuldade de comunicação ou até mesmo a solidariedade a um compatriota causava o riso que tanto me irritava.

  1. Saber quando é hora de falar chinês

Uma das razões de ter me isolado no meu primeiro ano na China é porque eu temia que se encontrasse uma comunidade de expatriados eu iria me comunicar em inglês e não dedicaria o tempo necessário para aprender o língua local. Eu tinha 4 aulas de chinês por semana, estudava em casa e ainda assim muito pouco era absorvido. Levei três, eu disse três, não uma, não duas, mas três semanas para conseguir pedir um café preto e quente 😦 e as tonalidades da língua pareciam não fazer sentido (ainda não fazem para ser sincera). Eu aprendi o básico, “quanto custa?”, “quero isso”, “não quero aquilo” e dava para sobreviver passando poucos perrengues.

No dia que eu fui “turistar” em Pequim eu descobri a importância das poucas palavras que eu havia aprendido. A brasileira que estava comigo queria comprar uma água e pediu em inglês, o vendedor prontamente respondeu 10 RMB. Eu ouvi aquilo, olhei para ele e disse em chinês que estava caro, e perguntei novamente quanto custava, pagamos 4 RMB. O chinês espera a barganha, é natural deles, mas muitos estrangeiros não sabem disso. A taxa de câmbio do dólar para o renminbi (moeda chinesa) é de 1 para 6, ou seja, 10 RMB ainda é barato para um americano.

Por outro lado, já em Guiyang conhecendo um pouco melhor a língua, eu availava a situação e o meu humor na hora de falar o mandarim, principalmente com taxista, porque se você der corda em cinco minutos ele já quer saber quanto você ganha, estado civil, e se for solteiro(a) quer arrumar pretendente. Mas para mim o caso mais interessante foi na polícia.

Todo estrangeiro quando chega no país tem um prazo de 24 horas para se registrar, quem é turísta, o hotel é responsável, no caso de residentes é preciso ir lá. 

A primeira vez que eu fui à delegacia, um funcionário chinês da minha companhia foi comigo, nós ficamos lá por um hora. Os policiais queriam saber tudo da minha vida, estava mais do que claro que a maioria das perguntas não eram necessárias para o documento emitido. Quando questionei a minha colega da relevância de tantas questões, o riso envergonhado por parte dela ao assumir que não passava de curiosidade foi inevitável

Toda vez que você deixa o país e volta é preciso comunicar a polícia. A companhia mais uma vez ia mandar um funcionário me acompanhar após ter voltado de Hong Kong, mas eu pedi para ir sozinha. Cheguei lá com o papel anterior, apontei, expliquei o que precisava e qualquer pergunta que eles faziam eu sorria e dizia que não entendia, mesmo para as perguntas que eu entendia, em dez minutos eu estava liberada e com o documento que eu precisava. Eu não me orgulho, mas eu gosto da minha privacidade, ou pelo menos de ter o direito de decidir o que quero compartilhar, afinal eu estou escrevendo um blog pessoal. 

  1. Faça parte de alguma comunidade

Viver longe do país de origem não é o glamour que todo mundo espera. Têm momentos especiais e incríveis em que você sabe que jamais teria a mesma oportunidade se não tivesse se tornado um expatriado, mas há momentos que você se sente pronta para compra a sua passagem de volta e nada mais resta do que dormir abraçanda ao travesseiro depois de chorar.

Fazer amigos, chineses ou estrangeiros é essencial. Em 2014, durante os jogos da Copa do mundo no Brasil, houve um único jogo em que os brasileiros resolveram assistir juntos, até então eu tinha encontrado só dois compatriotas em Tianjin. Eu me arrependo de não ter tentando conhecer outros estrangeiros antes, com certeza minha estada teria sido diferente, mas era tarde demais. 

Em Guiyang, foi muito mais fácil de conhecer pessoas, até porque eu trabalhava com doze estrangeiros e meu aprendizado se tornou multicultural. Nós éramos de diferentes partes do mundo (África do Sul, Ghana, Inglaterra, Russia, Polônia, Estados Unidos, Chile, França, e Brasil) e quando uma questão cultural era levantada a gente acabava aprendendo como cada cultura entendia a situação ou celebrava um feriado.

Em aniversários, festas, e pubs que os estrangeiros frequentavam eu acabei conhecendo mais gente e não que eu seja uma pessoa super sociável, mas era muito bom saber que haviam pessoas aqui que partilhavam das minhas frustrações e reconheciam as oportunidades que a China nos proporcionara.

Com certeza eu aprendi muito mais do que seis coisas na China e é por isso que essa é a Parte 1. Eu já tenho as próximas seis, mas esse post já está muito mais longo do que eu imaginava. Espero que tenham gostado.

9 thoughts on “O que eu aprendi na China – Parte 1

  1. Que bela descrição Tassia.
    Muito linda.
    Me senti ao seu lado vivenciando sua experiência.
    Saudades.
    Beijos para vc e para o André.
    O Tales está aí tb?
    Lembrancas a ele.

    Like

  2. Li hoje as partes 1 e 2. Só quem saiu “de casa”, do conforto do conhecido e da bolha em que vivemos conhece o sabor agridoce que é conhecer terras “estrangeiras”, ainda que dentro do mesmo país. Parabéns pelo texto e pelo blog, ficou muito legal!

    Like

  3. Amo tanto suas histórias, lembra-me muito os vídeos que eu assistia lá em 2012 sobre como é ser estrangeiro na coreia do sul (ainda pretendo morar um ano lá). Hoje já não é tão estranho ser estrangeiro lá, mas uma parte de mim ainda queria viver essa experiência de me sentir “esquisito” – pros padrões orientais.

    Like

    1. depende da cidade que você vai. Aqui Shanghai, Beijing, Guanzhou e outras é um pouco do que você falou, não é tão estranho, mas se você for para cidade menor eu acredito que você vai conseguir a experiência que você está buscando. Aqui quando eu cheguei a gente dava “oi” na rua para qualquer estrangeiro que via, porque era raro de ver.

      Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: