O que eu aprendi na China – parte 2

Bem-vindos de volta as nossas desventuras pela China – se você perdeu a primeira parte segue o link https://wp.me/pdhW2x-5u. Nessas duas semanas entre a parte 1 e 2 eu acabei percebendo outras diferenças culturais, além de ter a ajuda do André questionando alguns eventos dessa última semana, mas eu fiz o possível para encontrar as lições mais importantes, interessantes ou essenciais para qualquer pessoa que queira conhecer um pouco mais da China. Sem mais delongas:

7. Religião

A China é um país ateísta, isso significa que é permitida a prática religiosa, mas é preciso seguir algumas orientações.

Eu fiz a primeira comunhão na paróquia que ficava a 150 metros da casa da minha avó, estudei em escola de feira até a quarta série, ir a igreja sempre foi algo comum ao longo da minha vida, frequentei igrejas católica, evangélica, batista e protestante. Hoje eu ainda acredito em Deus, mas não pratico religião. Quando eu estava me preparando para vir para a China em 2013, uma das preocupações do meu pai foi ter certeza de que eu poderia embarcar com uma bíblia sem me trazer problemas, ele me presenteou com um dos livros mais bonitos que eu já vi. 

Pouco depois de chegar eu descobri que minha chefe era da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, eu não vou entrar em detalhes sobre a religião, mas ela me explicou que os serviços eram realizados aos domingos e que estrangeiros e chineses não podiam participar ao mesmo tempo. Eles tinham uma casa, e não um templo, e, às vezes, a polícia aparecia para verificar se tudo estava sendo seguido corretamente. 

Algum tempo depois, ainda no mesmo ano, eu conheci um americano que trabalhava na universidade e ele me contou que um de seus colegas de trabalho havia sido denunciado por cópias e distribuição de material religioso e ele foi convidado a se retirar do país. 

Igreja Católica – Guiyang

Resumindo, pode acreditar em quem quiser, só não pode ir no meio da rua pregar. Eu já fui em muitos restaurantes que tinham altar, crucifixo, ou oferendas, mas ninguém nunca bateu a minha porta para perguntar se eu queria ouvir a palavra do Senhor.

8. Álcool 

A fabricação de bebida alcoólica na China tem registros há mais de seis mil anos e até hoje é bastante popular em comemorações. Não é surpreendente por volta dos oito da noite cruzar com homens sendo carregados pelos colegas de trabalho ao saírem de restaurantes. 

Mijiu

Os jantares de negócio ainda são muito importantes aqui, e, geralmente, regados a Baijiu (vinho de arroz). Quando eu estava em Tianjin eu conheci um estudante universitário (o mesmo que ia me ajudar em Xi’an) e ele me contou que o primo e ele tinham um acordo e quando se encontravam eles revezavam em quem cuidaria de quem. Para ele era importante criar resistência ao álcool antes de entrar no mercado de trabalho, segundo ele para impressionar o chefe era importante demonstrar tolerância na mesa.

Para quem nunca teve a oportunidade de experimentar vinho de arroz, a bebida tem uma porcentagem alcoólica que varia entre 35% e 60%, normalmente é um líquido transparente e de fragrância semelhante a nossa cachaça. Muitos dizem que uma das vantagens é a ressaca inexistente no dia seguinte, eu me lembro de tomar dois goles em um casamento e a dor de cabeça começar antes mesmo de sair da festa.

Em Guiyang, eu conheci um grupo de brasileiros que estava trabalhando no projeto e execução de um avião de pequeno porte. A pergunta que não queria calar era como eles chegaram aqui. Um dia perguntei se quando o responsável pela equipe veio conhecer a cidade e negociar se ele fora convidado para jantar. A resposta foi afirmativa e com certo espanto. Questionei ainda se tinha bebida durante a noite. Ele respondeu que sim, muita, mas por conta da sua tolerância alta ao álcool ele não ficou embriagado. Bingo! 

Dica: O chinês sempre brinda quando bebe, portanto se você quiser dar um gole na sua cerveja é bom brindar com alguém que esteja na mesa (não precisa ser todo mundo).

    Ganbei (干杯) é a tradição de beber todo o líquido que está no copo (virar o copo), portanto, tenha calma ao beber por aqui.

9. Pontualidade

A China não é um país conhecido pela sua pontualidade, pelo contrário, qualquer compromisso que você tenha marcado vai começar pelo menos dez minutos depois do horário marcado. Só começa quando o boss chega, e por mais que todos os outros sejam pontuais é preciso ter paciência para esperar.

O que incomoda mais os estrangeiros aqui é a “falta de planejamento”. Honestamente, eu não sei se é desorganização ou se eles estão tão acostumados a ser dessa forma que não se preocupam em mudar ou melhorar nesse quesito.

Feriados, dias que devem ser compensados e reuniões são, geralmente, comunicados de última hora. Mudanças são feitas e por conta da barreira linguística o estrangeiro é o último a ser avisado.

Ao fechar meu contrato para vir para Guiyang eu perguntei qual era a urgência que eles precisavam que eu chegasse. A responsável pelo RH respondeu “O mais rápido possível”. Haviam algumas datas disponíveis e eu queria ir depois do meu aniversário, mas ela insistiu para que eu chegasse antes. Passagem comprada, tudo organizado, alguém da companhia deveria estar no aeroporto me esperando para me levar ao hotel. Dias antes da viagem eu recebo um email dizendo que eu chegaria em pleno feriado e que por alterações de última hora ninguém estaria me esperando, pelo mesmo motivo eu só seria contactada após o término do mesmo. Resultado, cheguei em Guiyang, tive que pegar um táxi que me cobrou o dobro do valor normal, e passei meu aniversário sozinha e em uma cidade desconhecida, distante de tudo e de todos.

Esse ano minha amiga questionou porque eles nunca sabem qual dia da semana eles devem seguir quando eles dão aulas aos finais de semana e a resposta é sempre a mesma, porque as escola precisam esperar pelo comunicado oficial do governo e os comunicados são dados tardiamente (de acordo com os nossos critérios).

10. Doces e pães 

sorvete de feijão vermelho

    Eu sei que eu escrevi sobre comida na postagem anterior, mas só quem comeu sorvete de feijão achando que era de chocolate sabe a dor que é encontrar doce na China. Digamos que no Brasil, a gente goste de doces muito doces – leite condensado em tudo, açúcar sem limites, chocolate e Nutella escorrendo por todo lado. Mas a China, é quase que o extremo oposto, não surpreende o fato de 80% dos bolos nas lojas especializadas terem muito mais fruta que creme e a massa ser seca (um minuto de silêncio para todas os bolos que poderiam ser deliciosos e não são). 

Se existe é porque tem mercado, e os chineses parecem realmente gostar do bolo seco e de creme duvidoso, assim como os demais doces que eu não consigo imaginar uma reação positiva se um brasileiro experimentasse.

Menção honrosa para as padarias que são de chorar, pelo uso de maionese doce em quase todos os pães, a massa de pão doce (açúcar onde não precisa) e pelo bacon que nunca será catalogado como bacon em nenhum outro país do mundo. Quem nunca comprou pão de forma e quando abriu encontrou passas ou outras bizarrices doces depois da primeira fatia que me julgue, mas a decepção de não saber o que fazer com um pão que você sabe que não agrada ao seu paladar é indescritível.

Estou falando das padarias chinesas, hoje existem franquias como Starbucks, Tim Hortons, Café Paris e outras em cidades maiores e que não deixam nada a desejar por serem franquias, mas doem no bolso.

11. Medicina

Eu já tinha ouvido falar da medicina chinesa, mas estando aqui é impossível não ter a curiosidade de entender um pouco mais. Existem dois tipos de farmácia e até mesmo lugares que têm um pouco dos dois mundos. Remédios industrializados como o que estamos acostumados e prateleiras cheias de plantas que são usadas para o tratamento tradicional, normalmente chás de gosto bem amargo. O mesmo vale para hospitais especializados em medicina tradicional chinesa ou com ambos os tratamentos.

Eu estou morrendo / beba água quente

Evidentemente nem todo mundo gosta de ir ao hospital quando os primeiros sintomas de desconforto aparecem. Claro que o primeiro lugar na lista de opções para evitar a visita ao médico vai para a água quente, para qualquer dor ou desconforto que você tem a primeira recomendação é para beber mais água quente (partindo do princípio que você já tome, porque afinal é bom para saúde), água gelada é quase que uma declaração de guerra, não importa a estação do ano você sempre verá chineses andando pela cidade com garrafas térmicas com chá ou água quente. 

Um dos grandes coringas na China para resfriados e gripe é um remédio chamado 999. Você prepara como um chá, não dos mais amargos e tem um efeito quase que imediato. Eu ainda adoro o chá de gengibre que me foi recomendado uma vez por um estrangeiro, eu adiciono mel e é excelente para a garganta. A vantagem é que o chá de gengibre você encontra em qualquer mercado ou loja de conveniência, além das farmácias.

Eu me lembro uma vez que tropecei nas escadas do prédio onde morava. Meu joelho ficou roxo e dolorido de uma forma que eu nunca tinha visto e eu não sabia bem o que fazer. Eu pedi a minha chefe para me ajudar, porque até aquele momento eu não tinha precisado ir à farmácia na China. Ela viu e disse que traria um remédio caseiro, receita de família. No dia seguinte ela apareceu com um frasco pequeno, com um líquido que parecia ser a base de álcool. Eu nunca vi um roxo desaparecer tão rápido. E em uma semana era como se eu nunca tivesse caído. 

12. Você sempre será um estrangeiro

A experiência de morar no exterior não é fácil de descrever. Quando você tem um período determinado para voltar para casa todas as adversidades são incômodas, mas tem uma voz na sua cabeça que faz a contagem regressiva para ir para casa, e você acaba tendo muito menos conflitos porque sabe que é algo temporário. No entanto, quando a decisão de morar fora é por um período indeterminado é preciso ter um pouco mais de cautela. 

Aqui, até hoje, ninguém nunca me mandou voltar para casa, eu já fui muitas vezes questionada porque a China, ou porque Guiyang. Eles sempre perguntam se eu gosto do país, da comida, e são muito amigáveis, mas…tem sempre um mas 😦 , quando você começa a questionar demais alguns dos costumes, ou porque algumas coisas são feitas de determinada forma que poderiam ser executadas duas vezes mais rápida e eficiente a resposta é sempre “Porque aqui é assim”, não existe nenhum interesse em tentar algo diferente ou explicar por qual razão o procedimento é aquele.

Faz dois anos que é muito difícil de entrar no país por conta do vírus, e é preciso se submeter a quarentena e muitos testes antes, ainda assim algumas pessoas quando veem um estrangeiro na rua colocam a máscara que normalmente está na altura do queixo, se você entra em um táxi eles pedem para você colocar a máscara e mostrar o código de saúde, quando você vai ao shopping não importa quantos chineses estão entrando ao mesmo tempo que você sem máscara e sem medir a temperatura, o guarda vai atrás do estrangeiro.

Guarda de shopping escolhendo quem parar para o código de saúde / laowai significa estrangeiro em mandarim

É preciso saber quando vale a pena se incomodar e quando é melhor voltar para casa e passar um tempo na sua bolha de conforto onde o mundo exterior é esquecido por alguns momentos. Afinal, de contas você será sempre o estrangeiro e eles não têm a intenção de mudar por sua causa é preciso se adaptar.

São sete anos de China e os últimos quatro sem voltar para casa, às vezes me assusta a ideia de voltar para o Brasil e como será a minha readaptação. Curiosamente, hoje eu estava conversando com um amigo que voltou para o país dele há pouco mais de dois anos e ele disse que os primeiros meses ele teve que se acostumar novamente a sua cultura, a forma de falar e agir.

Eu não sei quando eu vou voltar, portanto eu vou fazer o máximo possível para não me preocupar antes da hora.

Proofreader Liz C. Jacquinot

2 thoughts on “O que eu aprendi na China – parte 2

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