Minha casa, minha vida

A vida de expatriado é muito mais trabalhosa do que o glamour que muitos imaginam. O problema de morar em um país onde a língua não tem qualquer semelhança com qualquer outra que você já aprendeu é que uma atividade simples pode se tornar um verdadeiro tormento. Como eu já disse anteriormente, eu moro na China há sete anos. Eu já fiz curso particular, frequentei o curso de línguas da faculdade, baixei aplicativo no celular e pedi aos meus colegas de trabalho para me ajudarem. Hoje, eu considero meu mandarim medíocre, isso quer dizer que eu não passo fome, mas estou longe de me sentir confortável quando preciso usar a língua.

O que não faltam são situações hilariantes que aconteceram, e ainda acontecem. Como essa semana quando minha vizinha veio em casa para devolver parte do dinheiro que eu havia pagado do rateio do elevador, até eu entender que ela queria me dar dinheiro levou alguns minutos. E é exatamente quando algo relacionado a casa acontece o meu nível de estresse vai nas alturas, porque, para mim, a minha casa é um ambiente em que eu posso esquecer que eu não estou milhares de quilômetros longe de casa, eu falo a língua que eu quiser, eu comemoro o feriado que eu quiser e eu busco paz.

Mas calma, antes de começar os perrengues é preciso entender algo sobre apartamentos na China. 

  1. Em prédios antigos, o ambiente externo não é muito valorizado e parece não haver uma preocupação grande com o acabamento, canos estão à mostra, e os corredores ainda estão na massa corrida (encostou ficou branco). A impressão que dá é que eles estavam preocupados em ter o espaço construído para as pessoas mudarem e que outros detalhes seriam resolvidos no futuro (mas nunca foram).
  2. Os apartamentos são vendidos só com os pilares estruturais, você pode construir dentro do jeito que você quiser. Não é surpreendente pegar um elevador e parar num andar completamente abandonado, só com os pilares e mais nada, e no andar de cima ser um restaurante quatro estrelas, ou um KTV (karaoke), ou um apartamento residencial. Principalmente em prédios antigos os apartamentos não são iguais, porque o dono construiu da maneira que quis.
  3. O Chinês não tinha o hábito de alugar casa, até porque, num passado não muito distante, eles estavam em um outro momento financeiro e social. Hoje, é uma prática comum, mas ainda assim diferente, a maioria dos apartamentos são mobiliados e não é surpresa quando há objetos pessoais como roupas e sapatos dentro dos armários. Poucos apartamentos são alugados através de imobiliária. Qualquer problema é resolvido diretamente com o proprietário e a imobiliária é mais um intermediador para encontrar a casa.
lado de fora do apartamento, próximo da porta de entrada
dentro do apartamento, cano no banheiro do teto ao chão

Meu primeiro apartamento em Tianjin era um pequeno condomínio, de prédios de sete andares e sem elevador. Eu morava no primeiro andar (térreo) e meu apartamento era banheiro, quarto e um corredor com uma cozinha de fundo. Eu não precisava mais do que aquilo. Eu me lembro de demorar um bom tempo até eu conseguir considerar a casa limpa. É como se ninguém nunca tivesse arrastado os móveis para limpar embaixo, os lençóis estavam na cama há meses, com certeza. Não havia tanque para lavar ou esfregar nada, a máquina de lavar ficava dentro do banheiro que não tinha uma área para o chuveiro (não tinha box). 

Eu morava sozinha e pouco cozinhava, eu me lembro de comprar uma faca, um garfo, um prato e usar todo o resto que tinha na casa (que não era muito). Eu passei algumas horas tirando as jaquetas que estavam no armário, dobrando cuidadosamente e achando um espaço diferente na casa para guardá-las, confiante de que um dia alguém viria buscar (nunca vieram). 

Eu me lembro do dia que bateram na minha porta seis meses depois de estar morando lá e, eu, como sempre sem saber muito o que esperar, demorei uns bons cinco minutos antes de entender que a pessoa queria entrar na casa para olhar o registro de água. Depois de seis meses, ela fez a leitura, inseriu os dados no aparelho que ela tinha, e eu paguei a conta naquele momento, 15 RMB (na época algo em torno de R$7,00). Eu juro que tomava banho todo dia e uma vez por mês eu lavava a casa com baldes de água. 

Um dia eu cheguei no trabalho e minha chefe disse que precisavam da chave do meu apartamento, porque havia algo a ser feito e ela não soube me explicar bem e que não iriam esperar a minha folga para continuar o trabalho que seria executado no condomínio todo. Eu não sabia bem o que esperar. Ela não sabia quanto tempo a obra ia durar, mas eles disseram dois dias, ela não podia garantir. Eu não sei bem explicar a minha reação ao chegar em casa após o primeiro dia de obra.

meu banheiro

meu banheiro ainda durante a obra

Eu queria chorar, mas ao mesmo tempo eu queria rir por me encontrar em uma situação tão inusitada. Minha única certeza era que eu não podia ter dor de barriga, não naquela noite. Hoje, eu talvez teria tido a maturidade de ter me hospedado em um hotel, ou que minha chefe encontrasse uma solução já que ela era responsável pela minha moradia, mas eu ainda não tinha experiência o suficiente para saber como agir diante de tal situação. No dia seguinte, eles terminaram a obra no meu apartamento. No condomínio ainda durou mais algumas semanas e eu nunca soube, com absoluta certeza, qual era o motivo da obra. Eu desconfio que era algo relacionado a esgoto, mas nunca saberei.

Quatro meses antes de voltar para o Brasil eu me mudei para um outro apartamento. Eu estava no sétimo andar, mais uma semana para limpar tudo e quando a mãe da minha chefe veio me visitar ela passava a mão no azulejo da cozinha e ficava impressionada por estar limpo. Algumas semanas morando lá minha chefe disse que a vizinha de baixo tinha uma reclamação. A cozinha dela tinha sido alagada e ela culpava a mim. Eu esperava um encanador para vir visitar meu apartamento e resolver o problema, mas ao invés disso minha chefe, o pai, a mãe, minha vizinha, meu vizinho e mais um senhor, nenhum técnico vieram resolver o problema. Todos conversavam, apontavam, iam de um apartamento ao outro para ter certeza e decidiram que eu não podia usar minha máquina na máxima potência, mas mais nada seria feito. A minha máquina de lavar ficava na cozinha. Como eu não tinha nada muito pesado para lavar e eu já estava perto de ir embora, eu não quis criar confusão, afinal não era o meu apartamento que estava sob a ameaça de ser alagado.

Todos os apartamentos que eu morei em Tianjin eu não tive a oportunidade de escolher ou visitar antes de me mudar, meu contrato incluía um apartamento, meu único pedido era ter um vaso sanitário como o nosso (porque em algumas casas eles têm apenas o banheiro turco). Quando eu mudei para Guiyang, eu pude visitar alguns apartamentos e escolher em qual eu iria morar. Meu primeiro apartamento aqui tinha dois quartos, sala de estar grande e uma cozinha mais organizada. A máquina de lavar ficava no banheiro e eu tinha que secar o banheiro depois do banho, mas eu gostava daquela casa.

O casal que alugou o apartamento era recém casado e os pais haviam ajudado com a casa, mas ela engravidou e com o bebê a caminho eles decidiram morar com os pais dela por conta da criança que iria nascer (é uma questão cultural, talvez um próximo post). Como o apartamento havia sido reformado havia pouco tempo para eles, mas eles não moraram lá por muito tempo a casa estava limpa e eu não tive muito trabalho para limpar quando eu mudei.

Não tinha internet e era preciso que um técnico viesse fazer a instalação. Eu estava lá quando ele veio, mas ele estava tendo um problema e eu não podia resolver. Ele ligou para o proprietário para explicar que o prédio não suportava o fio que ele tinha que passar, segundo ele os conduítes já estavam sobrecarregados e eles precisavam de uma alternativa para o fio. O rapaz desligou o telefone, disse que o dono havia concordado com a solução que ele havia proposto.

Fio da internet instalado pela janela que eu nunca mais pude fechar completamente

Quando o André veio morar comigo eu mudei de apartamento, por sinal eu ainda moro no mesmo apartamento. A dona era amiga de algumas pessoas do trabalho, ela nunca havia alugado o apartamento, mas em geral eu não tenho nenhum problema com o apartamento. Durante a época da pandemia ela foi generosa demais comigo e com toda a situação por aqui e desde que eu mudei ela já trocou a geladeira, o aquecedor de água do banheiro e me ajudou em tudo que eu pedi na casa. Antes de mudar (eu moro no sétimo andar) ela disse que eles iriam construir um elevador para os moradores do prédio, os meus vizinhos são idosos e eles não querem mudar (eu confesso que a localização é excelente). 

Eu mudei para o sétimo andar e carreguei minha mudança usando as escadas. O André e eu deixou de andar de bicicleta por conta do trabalho e esforço de carregar as bicicletas usando as escadas. Um ano depois o elevador finalmente foi concluído e, hoje, quando qualquer entregador liga e diz que não encontra o meu prédio (o condomínio é enorme) eu falo para procurar pelo único prédio com elevador do lado de fora. Ele destoa completamente do condomínio? Sim. Ele para entre os andares e você ainda precisa subir ou descer escadas? Sim. Chove no corredor que eles construiram porque eles esqueceram que o vento interfere na chuva? Às vezes. No entanto, quando eu chego com compras ou cansada do trabalho é muito bom saber que eu não preciso subir sete lances de escada.

elevador do meu prédio

De maneira alguma eu estou desmerecendo a construção civil chinesa, até porque eu tenho amigos que moram em apartamentos que foram construídos há menos tempo e eles não deixam nada a desejar em comparação ao nosso padrão de acabamento ou estilo. Na verdade, eles tem buscado profissionais internacionais para o desenho e execução de projetos imobiliários aqui. Ainda assim, eu queria compartilhar um pouco das surpresas que eu tive com os apartamentos que eu morei e as soluções encontradas, ou não, para os problemas que eu tive.

Published by Tassia Kespers

Escritora, professora, tradutora, revisora, mãe e exploradora nas horas vagas.

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