Taishan – Parte 2

O dia estava espetacular, céu limpo, o sol nos aquecia no topo da montanha, mas estava na hora de voltar. Eu não sei exatamente quanto tempo nós passamos lá, mas deu tempo para descansar um pouco, explorar, comer e tirar fotos. Eu vi que não muito longe das escadaria que nós subimos tinha um teleférico, eu juro que tentei convencer meu grupo a optar por uma descida mais tranquila, mas se tem algo que chinês não gosta é de gastar dinheiro à toa e foi exatamente essa a justificativa que eles deram: “Descer é fácil, pagar pelo teleférico é jogar dinheiro fora”. Minhas pernas não concordaram, mas parte de mim queria acreditar neles.

Ao nos aproximarmos da escadaria, notamos que as pessoas estavam descendo apenas pelas laterais, segurando no corrimão, quando havia, ou nas correntes. Os degraus eram tão íngremes e desnivelados que qualquer descuido seria queda na certa. O problema estava em conseguir parar de cair, ao contrário de muitas escadarias, não havia intervalos para que as pessoas pudessem descansar, ou parar de cair.

Ninguém se arriscava a tirar foto, as pausas ocorriam apenas para analisar a melhor forma de enfrentar o próximo grupo de degraus a frente, os poucos que tentaram se arriscar a descer pelo meio desistiram. Eu continuava me perguntando, o que eu ainda estava fazendo ali.

Eu havia subido aquelas mesmas escadas, não era possível que elas tenham mudado tanto do dia para a noite. Apesar da tensão inicial, com o tempo as escadas ficaram um pouco mais acessíveis e nós já podíamos descer com mais segurança. Mas as pernas que já estavam cansadas começaram a sentir muito mais rápido o esforço físico, encontrei uma bengala de bambu, provavelmente de alguém que desistiu no meio do caminho, e a sensação foi melhor do que achar dinheiro no chão. A minha descida se tornou um pouco mais confortável e pouco depois eu notei que outros dois chineses do meu grupo também tinham encontrado uma bengala daqueles para eles.

É interessante como a iluminação de um ambiente pode mudar completamente a sua perspectiva. Apesar da dor, era impossível não se encantar com a paisagem. O sol iluminava a montanha, haviam pedras encravadas em chinês, o verde da natureza ao redor da montanha e a própria escadaria que, definitivamente, havia sido construída antes da profissão de engenheiro existir. Eu tenho certeza que se nós tivéssemos tentado escalar a montada durante o dia eu não conseguiria, porque de olhar a escadaria a minha motivação iria ter me deixado junto com as minhas pernas.

Ainda que tenha me sentido humilhada pelas crianças que se divertiam subindo ou descendo a montanha e por chineses que carregavam pesadas caixas com produtos que seriam comercializados no topo da montanha, eu consegui descer. Mesmo que na última meia hora tenha me custado muito do meu controle emocional para não desistir por conta da dor e cansaço. 

Nós acreditávamos que em um hora conseguiríamos descer a montanha, levamos três. Ao nos aproximarmos do lugar onde encontramos o homem na noite anterior, com as pernas tremendo e com o corpo abatido, eu não só o compreendi, mas senti que meu corpo estava muito próximo de ter a mesma reação. Se antes nós nos sentíamos desconfortáveis pela expressão das pessoas que desciam no começo da nossa subida, agora o papel havia se invertido e nós estávamos assustando todo mundo que cruzava o nosso caminho com destino àquelas escadas.

A parte mais difícil e recompensadora da viagem havia acabado, chegamos todos cansados, mas vivos, pelo menos era o que imaginávamos. 

Lembrem-se que tudo o que vai ser relatado daqui para frente foram ações tomadas por jovens, pessoas que têm uma tolerância muito maior ao desconforto e ao desconhecido, além de pessoas cansadas, na qual a razão já lhes faltava.

Pegamos um ônibus comum até a estação de trem já que os táxis ali não queriam usar o taxímetro e cobravam um valor excessivo pela corrida. Chegamos à estação e não havia mais passagem para aquele dia. 

Mas Tássia, por que vocês não compraram a passagem de volta antes? Eu não estava responsável pelas passagens, eles me garantiram que não haveria problemas, como nós não tínhamos certeza de quanto tempo iríamos levar para subir e descer a montanha, eles não queriam arriscar perder o trem. Eu não sabia, e até hoje não sei, como funciona o processo de  troca de passagens no caso dos trens lentos.

Continuando. Não havia mais passagens para aquele dia, havia uma opção de pegar diferentes trens e custaria por volta de 600 RMB (na época uns R$300), considerando que nós pagamos 68 RMB pela passagem de ida, ninguém estava a fim de pagar quase 10 vezes mais pela volta, mas havia um pequeno porém, eu tinha que trabalhar no dia seguinte e eu não estava disposta a perder um dia de trabalho.

O clima começou a ficar um pouco tenso, eles queriam passar a noite na cidade e encontrar um hostel para ficar, eu tinha que ir embora e precisava que eles me ajudassem a encontrar uma solução. Naquele ponto eu já estava disposta a voltar sozinha e deixar que eles fizessem o que considerassem melhor para eles, mas a barreira linguística pesava demais, porque eu não sabia nem como procurar por serviço de ônibus ou qualquer outra opção, e naquele momento eu não tinha ideia do que poderia fazer.

Ainda estávamos na porta da estação, sem saber muito o que fazer, quando um homem se aproximou do nosso grupo, os chineses tentaram se afastar, mas ele conseguiu a atenção da chinesa do grupo. Eles conversaram por cinco minutos e nós, ainda que um pouco afastados, nos mantínhamos alertas. Ela voltou, sua expressão não era muito animadora, mas ele parecia ser a única solução para o nosso problema naquele momento. Ele tinha uma forma de nos levar de volta para Tianjin.

Eles discutiram por um longo tempo antes de tomar uma decisão, não que seja correto julgar pela aparência, mas claramente ninguém estava confortável com a daquele chinês, e por ele ter nos abordado do lado de fora da estação de trem, evidentemente o serviço oferecido não era regularizado. Eu pouco participei da discussão, porque estava muito complicado de ficar traduzindo o que cada um falava e o que eu pensava.

Decidimos que teríamos que arriscar, eles não queriam que eu fosse sozinha e eu não queria esperar até o próximo dia para ir embora. Pagamos parte do valor combinado e ele nos pediu para que o acompanhasse. Seguimos até uma rua paralela onde um carro comum estava estacionado, ele pediu para que entrássemos no carro e de lá ele nos levaria ao carro que nos levaria a Tianjin. O caminho todo, cerca de 10 ou 15 minutos ele foi falando ao celular, avisando aos seus colegas de que havia mais cinco pessoas. Nós estávamos em 6 dentro do carro, além de apertados, por conta da falta de espaço, estávamos bastante apreensivos, incertos pela decisão tomada.

Ele parou o carro em uma rua vazia, sem casas, sem comércio, sem nada, disse que deveríamos descer. Eu juro que eu comecei a ficar realmente preocupada, todas as possibilidades passavam pela minha cabeça, eu me sentia em um filme, mas não daqueles de final feliz. Ele começou a andar e mais uma vez o seguimos, ele começou a subir uma pequena ribanceira e era possível notar que estávamos paralelos a uma via expressa, ou estrada. Ele pulou a guia de proteção que dava acesso a estrada e continuou andando, ainda que confusos continuamos seguindo, cinco minutos depois chegamos a um posto de gasolina onde havia um ônibus estacionado, lá dentro outras pessoas, que assim como nós, precisavam estar em outro lugar e não encontraram forma melhor. Pagamos o restante do valor combinado e esperamos a nossa partida. O homem desapareceu tão rápido que nem notamos que ele já não estava mais lá.

O ônibus era confortável, todos puderam ir sentados e ainda havia água para os passageiros. Não demorou muito para sairmos do posto e começar a viagem com destino à Tianjin. Mesmo confirmando com o motorista o destino, sempre havia um do nosso grupo acordado para ter certeza de que estávamos no caminho certo. Era começo da tarde quando chegamos em Tianjin. O ônibus parou em uma área longe da área comercial da cidade e pegamos o metrô para nos aproximarmos do centro. A sensação de estar em um lugar conhecido acalmava os nervos, mas os músculos ainda incomodavam e precisavam de descanso. Já na cidade, eles estavam tentando me ajudar a encontrar o ônibus que ia sentido a minha casa, mas eu já havia decidido que terminaria aquela viagem com o táxi parando na porta do meu condomínio. Despedi-me e agradeci mais uma vez pela oportunidade de acompanhá-los.

Peguei o táxi, cheguei no meu prédio e ainda havia mais sete lances de escada para serem vencidos, tive que subir usando o corrimão como apoio. O corrimão, provavelmente não era limpo há anos, mas naquele momento eu não tinha o luxo de escolher, minhas pernas já não respondiam. Cheguei em casa, tomei um banho e a parte mais recompensadora do dia foi a de poder deitar na cama e oferecer um pouco de descanso para as minhas pernas.

Nos quinze dias que se seguiram, minhas pernas ainda doíam. Na primeira semana eu não conseguia subir ou descer as escadas do meu prédio sem o apoio do corrimão. Eu tinha que ter certeza que não iria esquecer nada em casa e evitar escadas o máximo possível. Pouco depois já havia esquecido o quanto a minha perna sofrera, mas jamais me esquecerei daquela aventura. 

Se há uma lição, válida a ser dita, depois de escalar a Montanha Taishan é que quando eu fui conhecer a Muralha da China eu tinha certeza de que usaria o teleférico para subir. 🙂 

Published by Tassia Kespers

Escritora, professora, tradutora, revisora, mãe e exploradora nas horas vagas.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: