Crescendo

Eu morei em muitos lugares desde muito nova e tive que aprender a não me apegar a lugares. Não é todo mundo que pode dizer que morou em oito lugares diferente, três estados e dois países no período de 25 anos (Eu me mudei pela primeira vez com 11 anos).

Eu me lembro quando estava na faculdade meus amigos e eu partilhavamos de um sonho recorrente: Estar na cidade onde estudávamos, mas com os amigos da cidade que viémos. Mais de uma vez eu acordei depois de ter explorado a cidade com meus amigos da época da escola.

Um lugar só se torna importante em nossas vidas pelas pessoas que lá estão, pelas conexões que fazemos e as memórias que criamos. 

Com o tempo os sonhos foram diminuindo, o número de amigos também, assim como o aumento das responsabilidades fizeram com que sonhar fosse algo ainda mais raro. As mudanças continuaram. Terminei a faculdade e poucos meses depois estava em outro estado, fui para a China por um ano e quando voltei meus pais haviam mudado para outra cidade. Apesar da tecnologia era difícil manter contato, cada um seguiu sua vida e amizade-a-distância é para poucos.

Poucas vezes eu tive a chance de rever os amigos que fiz, de voltar para alguma das cidades que eu havia morado. As memórias que tenho de onde morei até completar 14 anos são como um quebra cabeça com muitas peças faltando. As amizades que eu fiz nesse período se perderam, ou são primos e, nesse caso, os laços sanguíneos nos mantiveram em contato. 

Morando na China por seis anos eu tive a oportunidade pela primeira vez de experimentar o outro lado da moeda. Eu vi amigos que eram muito próximos voltarem para seus países de origem e desaparecerem entre os perfis das redes sociais. Eu chorei em suas despedidas e ainda me alegro ao ver suas conquistas, mas a nossa conexão se perdeu.

Eu acredito que hoje se hoje eu voltasse para alguma das cidades que eu já morei, sobraria nostalgia e decepção. O lugar está lá, um pouco diferente, mas ainda o mesmo. Eu mudei, as pessoas que fizeram aquele lugar tão especial também mudaram e suas vidas seguiram cursos completamente diferentes. Algumas eu ainda admiro a distância pelas redes sociais, outras eu nem sei como encontrá-las.

É claro que eu voltei para visitar algumas cidades, em outras ocasiões eu tive amigos que vieram me visitar. Alguns era como se tivesse visto semana passada e nossa amizade continuava a mesma apesar da distância, outros era como se dois estranhos estivessem se encontrando pela primeira vez e o encontro era uma lembrança amarga de um tempo que não vai voltar. 

Depois de 5 anos eu estou finalmente de volta o Brasil, eu sabia que precisava me preparar para recomeçar. Nova cidade, novo emprego, novas amizades, novas memórias para se criar. Eu entendo quem não consegue se imaginar saindo de um lugar que está acostumado, ou viveu por muitos anos, mesmo que eu já tenho feito isso algumas vezes é sempre diferente. Nunca foi fácil e é impossível estar preparada para o que está por vir.

Quando eu mudei para Guiyang, eu tinha certeza de que não sofreria com o choque cultural, afinal eu já tinha vivido na China antes por um ano. Hoje me dá vontade de rir só de lembrar o quanto eu me arrependo de não ter chegado melhor preparada, ou tentado entender mais sobre a diferença entre norte e do sul do país. Eu me sentia conhecendo o país e a sua cultura como pela primeira vez, eu confesso que pensei em desistir e considerei morar em outra cidade. Após alguns anos eu já me sentia uma guia para estrangeiros. Assim como me ajudaram quando eu cheguei, eu tentei ao máximo amenizar a angústia dos novos expatriados. 

Desde que voltei para o Brasil tenho vivido algo, no mínimo, interessante. Como de se esperar, meus pais não estão morando na mesma cidade de quando eu fui embora. Eu ainda não tive a oportunidade de rever minha família (com exceção da minha madrinha que, de certa forma, é minha família), mas reencontrei amigos que não via há muito tempo.

Eu não sei se a maturidade é a responsável pelo desejo de valorizar as verdadeiras amizades, ou se com o tempo a gente perde a paciência em agradar os outros. Em poucos meses de volta eu tive a chance de reencontrar amigos desses que vão ser para a vida toda, encontrá-los apesar dos abraços apertados era como se nada tivesse mudado. Tudo bem que agora nós temos emprego, reponsabilidade e família e quando nos conhecemos éramos apenas pessoas cheias de sonho. 

A mudança na nossa conta bancária (ou não), no nosso status empregatício e na nossa situação familiar não alterou o carinho e o respeito que um tem pelo outro. Não criou barreiras ou desconfiança para que não se partilhasse dores pessoais. Foi incrível perceber que apesar de tantos anos meus amigos ainda eram os mesmos, pessoas com quem eu poderia conversar abertamente e que eles se sentiam igualmente a vontade para compartilhar um pouco da vida deles também.

Com o tempo eu aprendi a administrar melhor a distância, a manter próximo mesmo aqueles que há anos não vejo. Pessoas que falo semanalmente e que compartilho mais da minha vida do que meus vizinhos (eu ainda não conheço nenhum dos meus vizinhos) mesmo que um oceano nos separe. Pessoas que chamo de irmão e irmã, por ter um relacionamento como tal.

Eu não posso negar que eu amo explorar o mundo e não vejo a hora de encontrar os irmãos e irmãs que eu fiz para vida. Eu sei que vou conhecer pessoas nesse novo, mas saber que tenho amigos que estarão comigo (apesar da distância) me dá forças para continuar e motivação para poder revê-los em breve.

Published by Tassia Kespers

Escritora, professora, tradutora, revisora, mãe e exploradora nas horas vagas.

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