Domingo de manhã

Minha família sempre gostou muito de esportes. Uma das minhas lembranças mais antigas é ir com meu pai e meu irmão para a empresa de um dos tios dele no final de semana para jogar futebol. Era uma empresa grande (pelo menos é a impressão que eu tinha, eu era muito pequena), tinha uma campo de futebol na frente do prédio onde as máquinas ficavam. Os adultos jogavam enquanto as crianças exploravam o espaço e encontravam o que fazer. Era um dia em que todo mundo se divertia e a desculpa era o futebol. Outros domingos, a gente ia para a casa da minha vó, nós almoçávamos e ficávamos até o jogo do campeonato brasileiro acabar, por volta das 6:00 da tarde.

Outro esporte que a gente gostava de assistir era a Fórmula 1. Para mim, um dos momentos mais emocionantes são as ultrapassagens, elas compensavam todas as horas entediantes em que os pilotos dão voltas a mais de 200km/h. Eu me lembro que no dia 1 de maio de 1994, nós estávamos assistindo a corrida que ninguém gosta de lembrar. Para quem não sabe naquele final de semana, ainda no sábado, Rubens Barrichello tinha tido um acidente grave, no sábado um piloto havia morrido, e, no domingo, Ayrton Senna teve uma colisão fatal contra uma barreira de concreto.

Ayrton Senna

No Brasil, muitos dizem que a gente ficou órfão do Senna, ele era um desportista tão importante para a minha geração, dentro e fora das pistas, que até hoje pessoas da minha idade ou mais velhas lembram das corridas impossíveis que ele ganhou. Como o GP Brasil em 1991, ele teve uma pane no câmbio perdendo primeiro a quarta marcha, depois a quinta e as últimas oito voltas ele só tinha a sexta marcha, ele mal conseguia levantar o troféu no momento da premiação de tantos esforço que fez para completar a corrida em primeiro lugar. Depois de 94, as minhas manhãs de domingo tornaram-se silenciosas, ou pelo menos a expectativa era outra.

Outros esportes foram tomando espaço das manhãs de domingo (lembrem-se que eu sou da época em que internet não era rápida, e não tinha tanto o que se explorar online), minha família acompanhou alguns campeonatos de modalidades diferentes. Os cafés da manhã de domingo eram longos e, normalmente, acabavam junto com a partida. Na época era só mais uma atividade que fazíamos juntos, mas hoje, em tempos que cada um assisti o que quer na tela do celular e pouco se partilha, aqueles domingos se tornaram ainda mais preciosos para mim.

A gente também sempre gostou de ir assistir ao vivo. Íamos a estádios, ginásios, o que tivesse na cidade e fosse de graça ou barato. Foi no estádio que perdi minha primeira aposta e como péssima perdedora me recusei a virar São Paulina. Foi no ginásio que conseguimos nossas camisetas de basquete autografadas por todas as jogadoras, inclusive a Janette, que já era famosa na época. 

Meu esporte favorito é o futebol, não campeonato ou jogadores, eu gosto de ver jogo, se for bom eu vou assistir até o final, vou torcer para um bom jogo, independente do resultado, a não ser que São Paulo ou Palmeiras estejam em campo. Meu pai é São Paulino e eu Palmeirense e o esporte por anos foi algo que nos aproximou. Ele tirava sarro quando meu time perdia, eu fazia o mesmo com o dele, até hoje, quando eu faço videochamada, e eu estou vestindo a camiseta do Palmeiras ele pergunta se teve jogo, qual resultado. Eu reclamo do meu time, meu pai diz que agora só assiste pingue-pongue ou dominó e da seleção brasileira a gente reclama junto. 😛

Parece bobagem, mas, para mim, esse tipo de conversa, que acontece naturalmente, que não tem um propósito específico é que fortalece a amizade entre duas pessoas. Na última Copa do Mundo minha amiga francesa estava super empolgada, ela sabia que eles estavam com uma seleção forte antes mesmo de começar, eu me lembro de ir assistir aos jogos da França por conta dela e ela foi comigo para ver os do Brasil. Foi uma, se não, A copa que eu mais me diverti assistindo e o principal motivo é porque tinham pessoas para partilhar a paixão pelo esporte (e porque eu fiquei muito perto de ganhar o bolão da primeira rodada ;p ).

A cada nova fase do André, eu percebo um pouco das dificuldades para entender o que se passava na mente dos filhos. Mesmo que você acredite que tenha passado por algo semelhante, a sociedade não é mais a mesma, a pessoa não é a mesma e, principalmente, a perspectiva não é a mesma. 

Ainda assim, apesar de todas as diferenças, de todas as mudanças, de cada nova fase, eu queria ter esse algo que nos aproximasse, de poder conversar sobre um assunto aleatório e desinteressado. Por isso, para mim era importante ter um esporte que eu e o André compartilhássemos. Eu queria poder vivenciar com ele o que eu partilho com meus pais. Eu queria ter algo em comum que a gente pudesse passar horas conversando, não chegar a lugar nenhum, e ter a satisfação de que nenhum dos dois precisou se esforçar demais para manter a conversa.

André – Estádio em Guiyang

Como eu já disse muitas vezes aqui, eu gosto de futebol, e talvez um pouco mais do Palmeiras do que de futebol. Eu levei o André para o estádio, tentei assistir futebol com ele em casa. Meu pai fez o mesmo e ainda comprou camiseta de time para o menino (aliás antes de nascer ele já tinha uniforme do São Paulo), mas ele se dizia fã do Messi e que torcia para o Barcelona, mas não sabia nenhum jogador além do argentino e muito menos quanto tinha sido a partida do último jogo. Futebol nunca foi a praia dele, apesar dele gostar de jogar.

Pouco antes dele vir morar comigo na China, o André começou a se interessar pelo basquete. Ele adorava ver as jogadas, aprendeu o nome dos jogadores, o time que eles jogavam, assistia curiosidades sobre os melhores atletas e entende mais da NBA que muito americano. Quando ele se encontra com meu amigo que jogou e ainda trabalha com basquete eu não outra opção a não ser assistir os dois conversando sobre algo que eu entendo quase nada.

Esse ano, eu resolvi, finalmente, testar a NETFLIX, enquanto a gente procurava algo para assistir juntos durante as férias, nós acabamos encontrando a série Formula 1: Drive to Survive. Nós assistimos as três temporadas em poucas semanas, eu me encantei por poder ver os bastidores das corridas, conhecer os chefes de equipe e a batalha para ter um carro competitivo, pilotos satisfeitos, e o resultado das corridas. A edição está de parabéns por como eles organizaram cada episódio e o destaque que deram a diferentes personagens da Fórmula 1.

Descobrimos que no Youtube tem canais que fazem memes com o que aconteceu no final de semana da corrida. Além de muito material de corridas passadas e entrevistas. Não demorou muito e o André baixou a versão demo do jogo Fórmula 1 no Playstation, depois pagou pelo jogo completo. Eu pesquisei e vi que a temporada tinha começado e que a próxima corrida ia ser em um horário que daria para a gente assistir. Demos sorte, foi uma corrida emocionante, com bandeira vermelha, acidente logo no começo da corrida. A gente nem viu a hora passar. Eu ainda avisei que nem toda corrida era daquele jeito, para ele não ficar empolgado demais, de lá para cá, nós assistimos outras corridas, quando dá tempo, a gente começa a assistir meia hora antes, acompanha as entrevistas, a preparação, etc.

Horas de assuntos desinteressados que não chegaram a conclusão nenhuma do que poderá acontecer, do porque Bottas está saindo da Mercedes; da nossa torcida para que ele ganhe um corrida o ano que vem pela nova equipe; a expectativa para quando a próxima corrida não vai ser as 3:00AM e a gente vai poder assistir, e um esporte para partilhar.

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