Taishan – Parte 1

O ano é 2014, faltavam pouco menos de três meses para eu voltar para o Brasil e eu queria aproveitar toda oportunidade que eu tinha para explorar o país, até aquele momento eu não imaginava que voltaria à China tão cedo. Fui convidada a escalar uma montanha com um grupo pequeno de chineses, todos alunos universitários. Eu aceitei na hora. Mesmo nunca tendo escalado nenhuma montanha, eu não achava que teria muita dificuldade. Eu me considerava sedentária, mas acreditava que não teria problema algumas horas de caminhada em contato com a natureza.

O plano era pegar um trem no começo da tarde, um táxi até o parque que dava acesso à montanha, subir durante a noite/madrugada (evitando o calor, estávamos no verão), chegar ao cume antes das 5:00AM para ver o sol nascer, descer a montanha e pegar o trem de volta à Tianjin. Eu levei uma mochila pequena com a minha carteira, toalha de rosto e um casaco, porque no topo estaria frio.

Antes mesmo do dia da viagem eu estava começando a me sentir apreensiva, por mais que eu quisesse muito ir eu sabia que estava indo com pessoas mais novas e sem nenhuma experiência em viajar com estrangeiros. Pode parecer bobagem, mas infelizmente por aqui nem sempre é fácil viajar, você não pode se hospedar em qualquer hotel, comprar passagens ou qualquer coisa que requer identidade, às vezes, é muito complicado. Quando eu tentei explicar que por ser estrangeira teríamos que ir mais cedo à estação para retirar a minha passagem (hoje já não precisa mais), levou um certo tempo para eles entenderem. A pessoa responsável por comprar as passagens também teve dificuldades em ler meu passaporte e colocar as informações, mas no fim deu tudo certo.

O tão esperado dia chegou, nos encontramos na estação e um pouco depois de entrarmos na área de espera para o embarque um dos chineses me disse: “Vamos ter que revezar quem vai sentar”. Foi a minha vez de ter dificuldade em processar a informação, eu havia viajado de trem na China e não tinha visto ninguém viajando em pé. Ele então me mostrou os bilhetes e apenas três deles tinham o número de assento. Nós ainda estávamos em Tianjin e eu não iria me deixar abater por um detalhe pequeno, tudo bem que poder ir sentada, descansando, seria muito melhor para a escalada que nos aguardava, mas a gente iria revezar e todo mundo iria sentar um pouco. 

A espera na plataforma foi diferente das outras vezes, mesmo não estando sozinha, era impossível não notar os olhares curiosos ao meu redor, os próprios chineses que estavam comigo começaram a se sentir um pouco sem graça, eu era a única estrangeira por ali. O trem chegou, ao contrário dos trens rápidos, era preciso uma extensão de metal entre o trem e a plataforma para facilitar o embarque, o processo na estação foi muito mais demorado do que eu estava acostumada na China com os trens rápidos.

O trem, apesar de limpo, era um pouco mais compacto do que o outro (okay, era bem apertado na minha opinião). Encontramos nossos assentos, um dos meus colegas conseguiu trocar de lugar e ficamos com uma poltrona ao lado da outra, ignorei os olhares o máximo que pude e a única coisa que eu pensava era “ São quatro horas, vai passar rápido, vou compartilhar o vagão com os mesmos chineses, logo eles vão acabar se acostumando, vai dar tudo certo”. 

Assim que o trem partiu a expectativa pelo que me aguardava se tornava cada vez maior, não tinha mais volta. O que eu não imaginava é que a aventura já havia começado. O nosso vagão estava cheio, nós não éramos os únicos em pé. Eu comecei a viagem sentada, o vagão era tipo restaurante em que as poltronas ficam de frente uma para a outra. Eu falo poltrona, mas na verdade era mais um assento sem divisória para três pessoas, que ao final da viagem nós já estávamos fazendo caber quatro e só uma de nós tinha que ficar em pé. 

Um dos chineses que estava à nossa frente não conseguia esconder a curiosidade e bombardeava a menina que estava comigo com perguntas sobre mim e sobre o particular grupo que formávamos (pelo menos foi o que me traduziram). 

A viagem seguiu e nós mantivemos o nosso plano de revezar. Ficar em pé não era o problema, o difícil era se espremer contra os assentos para que os vendedores conseguissem passar com os carrinhos a cada 10 minutos (água, macarrão instantâneo, cigarro, baralho, era uma variedade impressionante). Os vendedores eram funcionários da empresa que administrava o trem. 

O calor estava começando a incomodar, estávamos felizes por termos tomado a decisão certa de subir a montanha à noite. Depois da primeira hora da viagem muitos passageiros começaram a comer e era impossível ignorar o odor. Era torcer para que a viagem acabasse logo. Com o tempo, alguns começaram a jogar cartas, a maioria das crianças se acalmaram e o trem estava um pouco mais silencioso. 

Um pouco antes de chegarmos, o mesmo chinês voltou a sua atenção para meus acompanhantes. Ele reparou que uma das pessoas que estava comigo tinha um sotaque diferente dos demais, ela era da região sul do país (considerada menos desenvolvida) e eles ficavam pedindo para ela repetir diferentes palavras para comparar. Ela foi a estrangeira por uns cinco minutos e eu me diverti um pouco não ocupando o centro das atenções. 🙂

Chegamos ao nosso destino. Estava escurecendo e tínhamos que encontrar um táxi que nos levasse até a montanha. Saímos da estação de trem e eu me surpreendi com o aspecto interiorano da cidade. Acredito que nós estávamos em uma saída lateral e a rua estava inacabada, muita gente na calçada oferecendo serviço de táxi ilegal, o comércio local era simples, o sistema de trânsito era precário e desorganizado. Eu nunca agradeci tanto por estar naquela viagem com chineses. 

Eles acreditavam que se nós nos afastássemos um pouco da estação seria mais fácil de encontrar um táxi. Não demorou muito e encontramos um que aceitasse nos levar por um preço razoável (era um carro ilegal). Ele sugeriu que parássemos para comprar capas de chuva porque, segundo ele, no topo da montanha costumava garoar pela manhã e, claro, se deixássemos para comprar depois iríamos pagar o triplo. Paramos, compramos água e capas de chuva.

Chegamos à montanha de Taishan( 泰山) dentro da nossa expectativa de horário. Havia fila para comprar ingresso, aparentemente nós não éramos os únicos que queríamos ver o nascer do sol. Quando entramos no parque já estava escuro, a maioria das lojas estava fechada. 

Eu confesso que estava achando um pouco estranho a quantidade de lojas e concreto no parque, eu nunca escalei montanha, mas já fui a muitos parques ecológicos no Brasil e já vi muitas reportagens na TV e nesses lugares a prioridade é preservar a natureza do local. Enfim, acreditei que era a entrada do parque e que logo estaríamos na montanha e o concreto ficaria para trás.

Tiramos algumas fotos antes de dar início a nossa subida, todos felizes e empolgados pela aventura. É impossível não notar como nós não sabíamos o que nos aguardava. Eu não tenho nenhuma foto da subida porque no começo estava muito escuro, no meio eu tinha que me preocupar em não cair e no fim eu mal tinha forças para mover os músculos que eu precisava para completar a subida. Às vezes, a gente tinha que usar a lanterna para ter certeza onde começavam os lances de escada e para não pisarmos em nenhum dos vasos com oferendas e dinheiro no caminho (ninguém soube me dizer o que eles significavam).

Eu, ainda em minha inexperiência, depois de 10 minutos subindo escadas e andando em concreto comecei a me questionar quanto tempo levaria para subir a montanha, se nem na montanha estávamos ainda. 

Nós ainda estávamos rindo e conversando quando a gente começou a reparar nas pessoas que estavam descendo, e nenhuma delas parecia muito feliz. Algumas nos diziam palavras de incentivo. Foi quando um homem, que aparentava 40 anos, estava descendo os degraus e as pernas dele tremiam, ele segurava um pedaço de bambu para ter um apoio melhor e tinha alguém caminhando próximo a ele, quase que garantindo que ele não caísse. Ele tinha uma expressão exausta e era impossível não se assustar.

Confesso que a minha maior preocupação era atrasar o meu grupo, já que eles eram mais novos que eu e tinham mais experiência, e eu comecei a duvidar se eu conseguiria subir a montanha. 

Mais vinte minutos de degraus e a gente chegou a “uma primeira estação” (eu não tenho certeza como chamam) com lojas, algumas fechadas, outras abertas, todas com apoio de escalada dos mais simples aos mais profissionais para vender. Eu comecei a reparar que muita gente tinha algum tipo de apoio e eu ainda cogitei entre o meu grupo que eu talvez devesse comprar um, mas eles me garantiram que eu estaria jogando dinheiro fora, que chinês gosta de fazer isso mesmo: “vendem coisas que você não precisa e depois você se arrepende”. Eu acreditei.

Mais meia hora e os degraus se tornaram lances de escada, era tudo mais estreito e agora haviam outros grupos próximos a gente. Eu sabia que algo de errado não estava certo.

Um hora e meia de montanha, e os degraus eram irregulares, às vezes era preciso esperar porque havia muita gente subindo ao mesmo tempo e nem todos mantinham o mesmo ritmo. Naquele momento eu me dei conta de que eu estava na montanha, mas eu tinha me preparado para escalar, entrar em contato com a natureza e não subir escadas cercada de gente por todos os lados.

Segunda estação, a gente decidiu parar para descansar e comer algumas frutas, era impossível não questionar se era assim que as pessoas subiam montanhas na China. A resposta positiva foi um aperto em cada batata da perna. Eu me questionava cada vez mais por quanto tempo mais eu suportaria.

A parada havia sido uma péssima ideia, talvez a gente tenha ficado tempo demais em repouso. Eu só sei que eu me sentia mais cansada, os degraus se tornaram ainda mais difíceis, em alguns momentos era preciso esperar porque os degraus eram tão íngremes que era possível, mesmo estando em pé, colocar a mão nos próximo degraus. Outras vezes era preciso ir nas laterais da escadaria, onde haviam correntes para se segurar e ter apoio para subir. Todos estávamos começando a sentir o cansaço da subida e subíamos em silêncio a maior parte do tempo.

A subida continuava, haviam grupos com rádios tocando músicas tradicionais no último volume, pais levando crianças muito pequenas, alguns carregavam as crianças nos ombros. Era assustador ver como parecia tão natural para eles subir a montanha cercada por tanta gente e com tantas escadas. 

A próxima estação chegou. Eu comprei um tônico, fiz uma pausa muito breve e rezei para que estivéssemos próximos. Eu pude ver que meu grupo estava começando a ficar preocupado se eles iam ver o nascer do sol se eles continuassem me acompanhando, mas eu estava além do meu limite já. 

Eram três da manhã, nós já estávamos na montanha há pelo menos 3 horas e meia, pelos menos três horas subindo escadas e o meu corpo já tinha avisado que por ele a gente parava ali mesmo. Mas eu insisti.

Chegou um certo momento que eu pedi para que eles seguissem sem mim. Eu não saberia se daria conta de subir e não queria ser a responsável por eles perderem o nascer do sol. Disse que os encontraria quando chegasse no topo, todos tínhamos aparelho celular e eu mandaria uma mensagem para encontrá-los. Alguns ainda insistiram e eu tive que ser um pouco mais firme em assegurar que estava tudo bem.

Com uma preocupação a menos eu podia focar no que eu precisava fazer. Era eu e as escadas, e um degrau de cada vez, sem pressa, no meu ritmo, e se eu perdesse o nascer do sol paciência. Naquele momento, se minhas pernas me permitissem chegar ao topo eu já estava contando como vitória.
Foi a meia hora mais longa daquela noite, eu muito esperta (leia com ironia) estava vestindo uma camisa da seleção do Brasil, chamava pouca atenção 🙂 , um ponto amarelo no meio da escuridão, subindo escadas infinitas sozinha e quase tão rápida quanto uma lesma. Um pouco depois os degraus voltaram a ser um pouco mais espaçados como no começo da montanha e eu sabia que faltava pouco. Não demorou muito e eu encontrei dois deles sentados na última parte da escadaria à minha espera. 

Vitória. Às 4:10 da manhã eu havia chegado ao topo. 

Assim como nós, outras pessoas também estavam andando por aquela área, havia algumas barracas, mas estava escuro e não dava para explorar muito. Era possível alugar casacos porque fazia muito frio no topo (eu acho que nós não éramos os únicos subindo pela primeira vez e com pouco preparo). 

Era hora de encontrar o lugar certo para ver o nascer do sol. Não sabíamos bem aonde ir, mas como todo ser humano seguimos a maioria e nos deparamos com uma área em que muitas pessoas estavam sentadas. Era torcer para que eles não estivessem errados.

Estava começando a clarear, mas o céu estava um pouco encoberto e não tínhamos certeza se veríamos o sol nascer. Começamos a aceitar que deveríamos nos conformar com a viagem, ter conseguido chegar ao topo e aproveitar o dia. Alguns minutos mais tarde, o céu limpou e pudemos ver os primeiros sinais do sol. 

Foi quando nós começamos a ter uma dimensão melhor da quantidade de gente que estava partilhando daquele momento conosco. Eu achei que havia algumas centenas de pessoas ali, mas não duvido se houvesse mais de mil. 

Assistir o nascer do sol no topo de uma montanha é algo que eu não quero esquecer nunca na minha vida. Ver as pessoas aplaudindo e saudando o sol, faz com que você deixe todo o cansaço de lado para apreciar a natureza, algo tão puro, que é impossível não refletir sobre a nossa pequenez, de como nós somos insignificantes em comparação a grandeza do mundo em que vivemos. Foi uma experiência inexplicável em muitos sentidos, e com certeza depois de quatro horas subindo escadas tudo se tornou ainda mais recompensador.

Ainda ficamos ali por algum tempo. Tiramos fotos, exploramos a área do topo da montanha (era muito maior do que eu esperava) haviam templos e construções em várias partes do topo. Eu esperava mais natureza e menos construções, mas confesso que estava encantada pelo que eles foram capazes de fazer, ainda mais considerando que muitas das construções foram feitas anos atrás, ou seja, era preciso levar tudo montanha acima pelas mesmas escadas que eu mal consegui subir sem nenhum peso. Muitas fotos depois e chegou a hora de descer. 

O que eu não sabia é que meu dia estava longe de acabar e que eu ainda tinha muitas surpresas me aguardando antes de subir os últimos sete lances de escadas do dia, limpando o corrimão do meu prédio, porque minhas pernas simplesmente não aguentavam mais, mas isso fica para a parte 2.

Published by Tassia Kespers

Escritora, professora, tradutora, revisora, mãe e exploradora nas horas vagas.

2 thoughts on “Taishan – Parte 1

  1. Olá, tudo bem? Além da aventura ser uma incógnita, a expectativa deve ter sido a parte mais angustiante da escalada. Mas, a recompensa estava lhe esperando no cume. Um belo nascer do sol e uma experiência indescritível!!!

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